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Avaliação das 3 vivencias rurais no sitio da Leodicea

Na visão de Dione Galvão, uma das associadas mais atuantes nas vivencias rurais:

“A vivência rural é uma atividade interessante dentro do projeto Campo e Cidade. Inovadora, gera inúmeros desafios para socializar conhecimentos diversos, tanto para o agricultor e consumidor. É um exemplo de ativismo e se apresenta como um caminho para geração de mudanças da agricultura familiar, seja como, proporcionar o agroturismo, estimular a prática dos mutirões e gerar inúmeras reflexões para diversas áreas de conhecimento, entre outros benefícios.

Já participei de inúmeras atividades com agricultores, porém, o formato da vivência proporcionada pela Rede na propriedade da Leodicéia foi impactante, porque gerou uma aproximação verdadeira com a realidade socioeconômica. Concomitantemente, a vivência fornece uma oportunidade para o aprendizado de algumas práticas agrícolas dos consumidores da rede, agricultores vizinhos, entre outros públicos interessados, com custo baixíssimo e intervenção mútua e direta na propriedade agrícola.

Lúcio apresentou um formato de apresentação para que os agricultores presentes na reunião pudessem compreender as vantagens de inserir uma atividade de vivência em suas respectivas propriedades. Talvez a técnica tenha falado mais alto em alguns momentos.

Sobretudo, enfatizou-se a necessidade da adoção de práticas agrícolas mais sustentáveis para se beneficiarem economicamente.

Comumente, assim como o Lúcio comentou, a agricultura orgânica está se tornando cada vez mais uma prática agrícola de troca de insumos e muitos estão investindo na comercialização, justamente porque o “orgânico” virou modismo e o preço de venda é mais elevado. Enquanto isso, suas terras estão empobrecidas e a maior parte de população nunca irá se abastecer desses produtos.

Dessa forma, através das vivências podemos proporcionar um debate mais aprofundado da mudança agroecológica que nós almejamos. Precisamos encarar de frente que há muita coisa a ser percorrida, muitas experiências a serem vivenciadas e que precisamos ser solidários nessa mudança. Não há espaço para conflitos que gerem desarmonia nesse processo, pois cada um tem contribuído enormemente na proposta dessa atividade do projeto Campo e Cidade.“

Como as vivencias rurais se iniciaram na Rede Ecológica:

A contribuição é de Miriam Langenbach: ”O fator decisivo foi haver um associado da Rede Ecológica, Lucio Lambert (Urca) com características pioneiras, buscando implantar uma ecovila e simultaneamente buscando desenvolver uma prática agrícola que lhe proporcionasse a oportunidade de checar seus conhecimentos adquiridos em oficinas, cursos, etc.

Como ele e seu grupo ainda não adquiram uma terra, a vivencia rural em sitio de algum agricultor da Rede poderia ser uma boa forma. Sua atuação é voluntária, seria sua participação na Rede Ecológica, e a Rede se encarregaria dos processos de articulação e viabilização das vivencias, compartilhando a coordenação.

Esta vivencia proporcionaria um momento de união e participação aos integrantes da ecovila, e também para associados da Rede em geral.

Esta proposta/parceria representou a primeira oportunidade da Rede se aproximar de fato do processo de produção de seus agricultores, o que não conseguira em 15 anos. A atuação da Rede é ter associados que acompanham produtores, visitando até eventualmente a terra, agindo como interlocutores para as necessidades dos produtores e consumidores. Mas um conhecimento mais profundo não existe.

A proposta das vivencias rurais:

  1. instrumentação para o fortalecimento do solo através da confecção do bokashi,de caldas,etc
  1. diagnóstico do sitio, buscando entender seus pontos fortes e fracos
  1. aprendizado para outros produtores, disseminando estes conhecimentos, o mesmo valendo para consumidores.

Nas palavras de Lucio Lambert: ”Estamos perdendo nossos agricultores. Esta é a realidade. Eles estão deixando a terra, o cultivo, o solo e se dedicando cada vez mais ao comercio, a intermediação, o que é bastante compreensível devido à pressão que sofrem para pagar as contas, para comprar comida e para pagar os custos impostos pelo sistema.

Neste sentido o que propomos, é tentar contribuir de alguma forma pra ajudar o agricultor que deseje, que se a sinta inspirado, a tentar resistir a este assedio/pressão do sistema capitalista. No nosso entender esta resistência, o biopoder do agricultor, está na saúde do solo, no cultivo da terra, na agricultura de fato, em investir na propriedade. Só assim ele poderá construir a autossuficiência e o consequente excedente da Natureza e poderá se motivar e compreender, pela própria experiência, que este é o caminho pra se libertar da escassez imposta pelo sistema capitalista, pelos negócios e o comercio puro e simples;”

As vivencias rurais no sitio da Leodicea

Pontos fortes:

Um sitio com presença de floresta, áreas para produção, presença de água abundante

Agricultora atuante na Articulação de Agroecologia do Estado do Rio, com bastante conhecimento da agroecologia; está na feira da UERJ e em eventos.

A abertura de Leodicea no sentido de topar uma experiência diferente, que significaria entrar em seu sitio.

Pontos fracos:

Solo enfraquecido

A água precisa ser captada para não se perder

As dificuldades com equipamento (quebrados, com exigências de reparo complicadas dela realizar)

Dificuldade de conseguir mão de obra

Estes ultimos aspectos, acrescidos do fato de ser uma mulher sozinha a frente do sitio, a levou a se organizar como articuladora e comercializadora entre produtores locais – um aspecto não compartilhado com a Rede, mas que foi ficando cada vez mais nítido na medida em que as vivencias foram acontecendo.

Dificuldades na comunicação, tanto eventualmente no acesso, quanto no sentido de não compartilhar suas decisões.

Como exemplo da primeira à segunda vivencia, resolveu investir na ampliação de sua casa, muito precária. Sua idéia é que possa receber hóspedes, acoplado á possibilidades de vivencias. Ao longo do tempo ficou claro que o agroturismo talvez seja seu principal interesse neste momento: promover vivencias de caráter mais recreativo, acompanhado de uma boa alimentação (cozinha muito bem).

Estas escolhas não lhe possibilitam fôlego para investir na produção, e consequentemente no aproveitamento das propostas que lhe estavam sendo apresentadas.

A expectativa da Rede e de Lucio é que da segunda para a terceira vivencia ela já tivesse um papel mais ativo, já que a idéia de fundo é que, se investisse em bokashi e biofertilizante, poderia ter produtos que não existem no mercado para comercialização. Poderia se especializar um pouco nisto, que seria um esquema mais tranqüilo do que a própria produção. Mas para isto acontecer, teria que ter o processo sob seu controle.

 

E isto acabou não acontecendo.

Ao final da terceira vivencia lhe foi dito que só se iria novamente caso ela preparasse a estrutura necessária para a vivencia (em realidade o mesmo foi dito depois da segunda vivencia, mas acabamos providenciando alguns itens).

As providencias tinham a ver com conseguir o pó de pedra (que já tinha sido contactado, e está disponível a poucos km de sua casa), a grama estar picada (a picadeira foi um grande problema o tempo todo).

Também buscar o bagaço de cana na zona norte seria uma necessidade, para fazer frente a dificuldade com a cana. Lucio tinha contactado um espaço que está doando este material.

Estas iniciativas não ocorreram e a Rede considera que em principio as vivencias por enquanto se encerraram.

A proposta era trabalhar por alguns dias em mutirão no sitio e o momento final seria um mutirão no domingo que possibilitaria a presença de um numero maior de pessoas.

Ao longo do processo, fomos notando que havia outras questões importantes a serem tratadas, como a captação de água e instalar um sistema de gotejamento (ela já tinha as mangueiras). Nesta etapa entraram ativamente Rafael Carvalho (Grajaú) e Zolmir Figueiredo (Grajaú /Verdejar), que assumiram esta parte. Prepararam a transferência do reservatório, escolhendo o lugar mais adequado; preparam bambu para ser a base de um espaço de guarda do bokashi. Estão disponíveis para resolver o gotejamento, desde que tenha sido feita a conexão com a mangueira. Fica clara a riqueza que a Rede tem de pessoas que possam e queiram contribuir.

Outra associada muito atuante foi Dione Galvão (Campo Grande), que se propôs a fazer análise do solo e dos produtos a partir de amostras, ensinou como se fazer a coleta do solo, e orientou em relação a agrofloresta.

Os ganhos das vivencias:

Para o sitio de Leodicea:

Ela sabe como produzir estes produtos, e em algum momento poderá deles fazer uso

Ela teve um reservatório de água doado e que não estava em funcionamento, que foi levado a um lugar na floresta e preparado para captar a água das nascentes.

Houve o aprendizado de como preparar bambu para criar uma tenda para a guarda do bokashi

Apoiou-se uma pequena agrofloresta no sitio

Fez-se um canteiro piloto de aprendizado com os produtos desenvolvidos para o solo.

A visibilização que aconteceu em relação ao sitio foi certamente algo muito importante para leodicea.

Interação com muitos consumidores e uma boa comercialização no dia do mutirão

O estimulo para se envolver mais concretamente no agroturismo

Para os consumidores:

Entender melhor o processo de fortalecimento do solo, a observação do plantio e da natureza, as várias formas de intervir e fazer a gestão.

Em realidade funcionou como um espaço de acolhimento para agregar pessoas na Rede interessadas na produção, criando uma comissão de apoio à produção de nossos agricultores.

Do ponto de vista humano e social, fortaleceu amizades, trocas de informações, momentos de alegria.

Compartilhar o alimento foi outra referencia importante.

Os almoços preparados pelos associados e trazidos para o mutirão, assim como pratos que leodicea preparou proporcionaram ótimos momentos.

O que foi feito em síntese nas 3 vivencias, todas acompanhadas de visitas prévias e a seguir (as vezes na Uerj, mas em geral no pp sitio) está registrado nas cartas semanais em detalhe.

Vale destacar ainda o apoio de pernoite na casa de Juliana Diniz, agricultora da Rede, que proporcionou para os que ficaram mais dias momentos de descontração e boa comida (café da manhã e sopa).