Prezada(o)s amiga(o)s,
Dia 21 de outubro, sábado, fez exatos 16 anos da primeira entrega da Rede Ecológica. Na época ela aconteceu na Urca, especificamente na escola NAU, nossa parceira desde o primeiro momento.
Muita coisa aconteceu desde aqueles primeiros tempos, em que as duvidas sobre a viabilidade eram totais, e o esforço era voltado para que as pessoas topassem comprar na modalidade orgânica, com o mínimo de exigências.
Fomos ao longo dos anos nos organizando, ganhando cada vez maior clareza de que tínhamos um perfil específico, que estava relacionado a uma visão mais política do consumo, que solicitava ir além das compras. A clareza de que o mercado capitalista se organizaria para incorporar o orgânico, nos fazia pensar em um formato mais trabalhoso, mas que possibilitasse uma maior resiliência ao que viria pela frente.
Nos últimos anos fomos percebendo que a proposta estava dando certo. Daí começou a preocupação em que fossemos além das 250 famílias que somos, para tentar chegar a outros espaços, até com outros formatos, que, entretanto deveriam ser fiéis a alguns princípios:
1- O papel do coletivo, com todos seus desafios, visto como fundamental: o grupo representado através do núcleo, com a presença necessária. O grupo atuando ainda através de representantes na comissão gestora, ou em outras comissões que vão definindo caminhos, estratégias e decisões da vida da Rede Ecológica. Sem o coletivo a compra nossa não aconteceria.
2- A participação de cada um é um desdobramento natural, e foi cada vez mais se implantando na cultura de nosso grupo como algo necessário para a proposta dar certo. Junto vieram os apaixonamentos e a percepção da importância desta prática, e o prazer dela resultante.
3- A convicção de que os agricultores familiares agroecológicos são nossos parceiros, dos quais queremos estar crescentemente próximos pela importância fundamental que eles tem na nossa qualidade de vida. Queremos cerrar fileiras, não só através da compra, mas visitando-os, conhecendo-os, instrumentando-os tecnicamente, apoiando-os em momentos difíceis; defendendo sua presença e importância na cidade do Rio de Janeiro, como é feito pelo Consea Rio, onde nossa atuação é marcante há vários anos.
4- A solidariedade como um valor fundamental, vivida na prática para todos os problemas que surgem, e especialmente desenvolvida na relação com as dificuldades vividas por nossos produtores e motoristas.
5- A adesão aos 3 Rs (reduzir o consumo, reaproveitar e reciclar ó lixo orgânico, evitando a reciclagem dos demais materiais), nos opondo á crescente obsolescência programada. Nossa ação é visível através da vinda dos produtos a granel, as sacolas (não plásticas!) e os vasilhames sendo diretamente trazidos pelos consumidores. Uma mentalidade de preservação do nosso planeta;
6- Transparência, no sentido de irmos contando a nossos integrantes o que nos acontece, construindo assim nossa história como memória, da maneira mais clara possível. Este registro tem sido feito desde 2001 através de nossas cartas semanais, e explicita a importância que damos à memória, e ao repasse.
7- Envolvimento com políticas públicas visível na nossa atuação no Consea RIO, atualmente presidida pela Rede Ecológica e também na Articulação do Plano Popular das Vargens (relacionada ao núcleo Vargem Grande).
Há aproximadamente 2 anos iniciamos o movimento de irradiação da nossa proposta, através de um encaminhamento de regionalização. Assim, temos núcleos na própria cidade do Rio de janeiro (zona sul, norte e oeste), que foram decisivos em estruturar nossa proposta, e temos núcleos na baixada fluminense, em Niterói, na região serrana. Itaipava, um núcleo que integrou por vários anos a Rede, fez um processo muito bonito de emancipação regional, partindo para a independência, apesar da manutenção da filiação, e se organizando como um espaço de referencia na região serrana.
Atualmente nossas atenções estão focadas na baixada fluminense, onde iniciamos há aproximadamente 1 ano, um trabalho de reforço à criação de novos coletivos de consumo, aprofundamento na interação com agricultores assentados, através de vivências rurais, e visitas/entrevistas, ações realizadas por uma equipe de associados do recém-criado Programa Campo e Cidade se dando as mãos na Baixada Fluminense. Um filhote é o novo núcleo de Caxias, que já inicia seus trabalhos com certa independência, mas caminha junto nesta etapa.
Fazendo parte deste processo de regionalização na baixada fluminense, há o núcleo de Nova Iguaçu e a perspectiva de criação de um núcleo em são João de Meriti ou adjacências. Niterói também iniciou seu processo de regionalização através da compra de frescos.
Neste ínterim, a organização de consumo tem se modificado rapidamente em nossa cidade. Assim o consumo de produtos orgânicos passou a acontecer junto a alguns grupos de consumo: os CSA, o fenômeno Comida da Gente, a Junta Local. Os próprios movimentos do campo tem se organizado para entregar cestas de seus produtos (MPA e MST), o que representa um avanço importante. Entretanto continuamos a perceber que o movimento que coloca mais ênfase sobre os princípios acima relacionados é o nosso, ficando nos demais o foco nas compras como o ponto principal.
As feiras orgânicas e agroecológicas têm surgido e prosperado, fato importante tanto para o escoamento quanto para uma aproximação frente a frente consumidor – produtor. Mas novamente fica faltando uma organização mais conjunta de produtores e consumidores. A exceção fica por conta de feiras que acontecem em Campo Grande e Vargem Grande, onde há a presença de núcleos da Rede Ecológica e da Rede Carioca de Agricultura Urbana, viabilizando trabalhos de cogestão entre produtores e consumidores.
Destaca-se na feira de Campo Grande a viabilização da campanha Xô Saco Plástico! que graças à adesão de produtores, que planejaram junto com os consumidores esta campanha, conseguiram retirar o saco plástico da feira. Um feito e tanto!
Por outro lado, importante registrar o contexto político em que nos encontramos há quase 2 anos: um regime ilegítimo que interrompeu o processo democrático, que estava em curso, introduzindo uma série de medidas votadas por um congresso corrupto e conservador. Estas leis desmontam as conquistas obtidas nos últimos 13 anos com governos progressistas. Assim os trabalhadores em geral, a indústria nacional, os nossos recursos naturais inclusive o acesso às terras, tudo foi retrabalhado para retirar direitos e financiamento.
A reforma trabalhista e terceirização cria mão de obra mal paga e submissa; cortes em relação à educação favorecem o retrocesso no fortalecimento do acesso da população a mais conhecimento e melhor profissionalização.
Pensando na nossa população do campo, fica reforçada a repressão ao movimento ambientalista e do campo e há um retrocesso em programas voltados para a agricultura familiar e para a segurança alimentar e nutricional.
O campo é uma das arenas importantes de luta, em que rapidamente se tomou medidas que vão inviabilizando os agricultores familiares e seus movimentos. Assim, o ministério de desenvolvimento agrário, os grandes programas como PAA e PNAE foram reduzidos ao ponto da descaracterização. A repressão e assassinatos no campo e em relação ao movimento ambientalista recrudesceu. A facilitação para venda de terras a estrangeiros, uma legislação ainda mais flexível em relação aos agrotóxicos, perdões e isenções de dividas dos grandes proprietários rurais, todo este conjunto, vai criando um clima de terra arrasada, de grande ameaça para o fortalecimento do campo e de seus moradores. Assim as escolas do campo estão sendo extintas; a universidade, na qual o campo pela primeira vez estava tendo possibilidades de um aprendizado diferenciado, está muito ameaçado. O êxodo vai se configurando novamente como opção preferencial, inchando ainda mais as cidades e ameaçando de extinção os agricultores familiares.
Todas estas tendências reforçam a dependência do país ao imperialismo norte-americano e as multinacionais. É importante se ter claro que atualmente um conglomerado de aproximadamente 10 grandes empresas multinacionais domina a produção e o consumo de nosso planeta.
Deste quadro de dominação faz parte a entrada destas multinacionais no mercado de orgânicos/agroecológicos que por seu crescimento e lucro, tem despertado interesse.
Assim podemos observar a entrada dos orgânicos nos supermercados, reforçados pelas certificações, inviabilizando os pequenos produtores. Isto na Europa é bem visível, onde existem supermercados inteiramente orgânicos que vão excluindo pequenos agricultores familiares, que praticamente desapareceram.
A aquisição por multinacionais de empresas brasileiras podemos ver através de alguns exemplos:
Unilever, uma das 3 maiores empresas do mundo, comprou a Mãe Terra Brasileira
A Jasmine foi comprada pela francesa Santé et Nutrition, controlada pela japonesa Otsuka
As multinacionais entram nos sucos/frutas /lácteos:
Ambev, a maior empresa de cervejas do mundo comprou a brasileira Do Bem, entrando no mercado de sucos.
Coca Cola comprou a Del Valle e a Verde Campo, entrando no mercado de sucos e lácteos.
Importante ficar claro que as grandes empresas impõem sua lógica, logística e modo de funcionamento, descaracterizando e padronizando os produtos.
Ao mesmo tempo a valorização das frutas como componente da alimentação saudável reforça a importância destes alimentos, que vão assim sendo abocanhados pelos grandes e, como de costume, excluindo ou subordinando os produtores à indústria.
Com este movimento acontece a apropriação das frutas pelo agronegócio. Isto tem relação com os problemas criados pelo Ministério da agricultura para a venda de polpas de fruta pela agricultura familiar para as escolas, através do Programa de Aquisição de Alimentos e do PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar). A exigência de pasteurização das polpas de frutas congeladas têm inviabilizado a venda de polpas de frutas nativas por várias organizações de agricultores familiares. E mais recentemente a Rede Ecovida da região sul tem sido impedida de realizar sua venda de laranjas orgânicas in natura para fora do estado, com a desculpa da ameaça do Cancro Cítrico.
O que nós percebemos é a urgência de um entendimento claro por parte dos consumidores do que está em jogo: a luta desigual entre agronegócio e agroecologia . Os consumidores, que são a ponta final do processo, tem um papel fundamental neste embate, pois sua adesão a uma destas propostas definirá o desfecho. Entender o que está em jogo, inclusive as movimentações que estão em curso é um aprendizado complexo, mas necessário para que os posicionamentos não se deem por momentâneas seduções. Afinal, estamos num cotidiano em que a população é trabalhada diariamente pela mídia, publicidade, promoções, etc. para se tornar consumista e para aderir ao que o agronegócio oferece, visto como inovador, seguro , etc.
Esta reflexão e aprendizado prático precisa acontecer nos espaços mais diversos, para que o movimento agroecológico possa contar de fato com a aliança com a cidade. Acreditamos que estes 16 anos de prática ininterrupta que a Rede Ecológica tem realizado de um consumo consciente e cidadão preparou as bases para poder enfrentar este tipo de situação e para contribuir na reflexão. Aprender a ter uma visão critica e ter alternativas é a grande necessidade e desafio. Não importa que sejam pequenas iniciativas. Talvez por serem pequenas, podem ficar fiéis ao que importa. Mesmo pequenas, podem ser muitas, cumprindo seu papel, inclusive enquanto formadoras de opinião.
Neste mês acontecerá o Encontro da Articulação de agroecologia do Estado do Rio de Janeiro (entre os dias 25 e 28.). Neste encontro será discutida uma carta política, que deverá enfatizar o papel do consumidor na cadeia agroecológica. Importante destacar nela algumas das questões que foram levantadas neste texto.