Rrelato da assembléia regional em Itaipava em 26/06/2016 realizado por Miriam Langenbach (Urca):
Presentes Denise Gonçalves, Julia Eleana, Ingrid Prouot, Monique Gonçalves, Anna e Alexandre (Itaipava), adelina araujo, Julia Stadler, Julie Terzian , Miriam Langenbach Tais e Vinicius Rodrigues (zona sul Rio) Ângela Prado e Vania (Nova Iguaçu), e Rosangela Laranja (Niterói). Vieram ainda Andreza de Andrade (Nova Iguaçu) interessada em formar um grupo de compras em Miguel Pereira e Ana de Friburgo querendo saber mais sobre a Rede Ecológica. Éramos 17 pessoas.
a.Foi trazido o panorama do nucleo Itaipava, que está fazendo compras separadas. Traz a questão dos laticínios, realizada junto a um pequeno laticínio de Bem Posta.
Integramos o relato de Denise Gonçalves sobre a visita realizada a Bemposta em 13 de juhnho de 2016, que fala tudo:
“O objetivo da visita a Bemposta foi de visitar o produtor de leite que é o maior fornecedor do queijeiro do pequeno laticínio que abastece o núcleo Itaipava há mais de dois anos.
Situando: o Ronivon é esse queijeiro que herdou o laticínio do pai, recentemente falecido. Bemposta é um pequeno distrito de Areal, tradicionalmente era a “roça” daqui da região, local de pequenas propriedades rurais de produção diversificada (leite, café, cachaça, etc). A produção de laticínios foi marcada pela Fazenda Bemposta que produzia a coalhada Normandia e outros produtos vendidos no Rio, e que era o centro das atividades, empregando boa parte da população. A fazenda hoje está abandonada junto com o laticínio.
Ronivon assumiu a pequena queijaria do pai, depois foi experimentar trabalhar em outras coisas mas acabou voltando para a atividade pouco antes de o conhecermos. Ficamos satisfeitos em saber que a nossa compra inicial, apesar de pequena, foi importante para dar uma força para ele nesse reinício, e depois com o crescimento do grupo e a entrada de Teresópolis ele estava vendendo bem para nós, apesar de ser uma compra mensal. Hoje ele conseguiu um funcionário para ajudar porque cuida sozinho da produção e das entregas; é sua filha de uns 12 anos que ajuda o pai na organização dos pedidos pela internet.
Para sua produção (manteiga, requeijão, coalhada, queijo minas frescal, mozzarella bolinha, queijo meia cura) Ronivon pega o leite dos pequenos produtores de Bemposta e região. Começamos a pensar no fornecimento desses laticínios para a Rede Ecológica (Rio), Bibi ajudou a pensar numa proposta de se iniciar a compra diante do compromisso da conversão desses pequenos produtores de leite a um manejo agroecológico, e estipulando-se um prazo para isso. Só que a conversa sobre isso acabou não avançando muito. Ronivon conversou com produtores mas logo verificou que não havia muita abertura, e que a questão da alimentação animal era difícil de resolver porque os pequenos produtores não têm a posse da terra e não iam querer investir em plantar milho, etc. ou mudar o pasto. Acabamos não dando sequência.
Agora voltamos a pensar nessa possibilidade, o Ronivon então marcou essa visita com um senhor, S. Duí, para conversamos sobre o assunto do manejo. Fomos eu, Sergio (chefe da APA) e Mariana, também da APA. S. Duí é um “neorural antigo”, já tem certa idade, é agrônomo, trabalhou em SP mas resolveu comprar o sítio há uns 30 anos. É uma pessoa refinada, tem esse belo sítio em Bemposta onde produz leite, entregando a maior parta para a marca Godam. Nos recebeu e conversamos bastante, ele colocou as dificuldades do dia a dia da produção, os principais problemas de saúde das vacas (mamite e carrapato), e nos fez ver como receitas que parecem de fácil aplicação não são tão fáceis assim de serem introduzidas. Toda a produção animal foi construída segundo um sistema, e desconstruí-lo, para quem está em atividade, não é coisa fácil. Por exemplo, o carrapaticida: ele disse saber que existem experiências no sul do Brasil com produtos naturais, mas que lá é frio e o problema do carrapato é bem menor que em Bemposta, local quente e onde há uma infestação enorme. Disse que o filho dele costuma falar sobre o manejo agroecológico, que ele próprio acha difícil mudar mas que a gente “deve sonhar” com as coisas melhores. Está aberto a mudanças desde que a gente leve resultados de pesquisas e experiências. É uma pessoa estratégica porque é respeitado na região e pode servir de exemplo.
A outra iniciativa foi entrar em contato com Roberto Leite (já foi presidente da Abio) que tem uma fazenda em Sapucaia e faz experiências agroecológicas com leite, agrofloresta, etc. A ideia era ver se ele poderia fornecer leite para o Ronivon, ele respondeu que por ora está trocando o gado e não está produzindo, mas disponibilizou uma visita a sua fazenda (ele quer fazer dela uma espécie de “fazenda-escola”). Vamos marcar então essa visita levando o Ronivon, o S. Duí se for possível e outros que se interessarem, a vamos juntando as pontas.
Como observação, a pesquisa sobre os queijos artesanais dentro do GT dos Queijos do Slow Food, de que faço parte, tem revelado o quanto estamos longe de um manejo animal agroecológico, principalmente em relação à alimentação. Os dois únicos produtores de queijos que foram aceitos pela Rede, Paulo Bittar (fazenda Serra Boa Vista, queijo parmesão) e Luciano (Aprocame, queijo canastra) não vinham de um tradição de produção familiar como a maioria dos pequenos produtores. Quando começaram já tinham outras idéias e fizeram investimentos para produzir de forma agroecológica. São exceções, dentre os produtores que a gente conhece ou tem notícias num universo hoje bem extenso. Por isso acho que se tratando de produtos de origem animal a posição da Rede deve ser de ajudar a transformar essa realidade e flexibilizar as regras para entrada desses produtos, desde que haja um compromisso de mudança mas sabendo que ela não será rápida. Ao mesmo tempo estaremos contribuindo para que os produtores que processam leite não abandonem a atividade como tem acontecido de modo crescente, eles enfrentam muitas dificuldades e acabam desistindo se não tiverem apoio. Para os que produzem leite é muito mais fácil entregar para a indústria que processar, e para quem processa, como o Ronivon, é difícil encontrar fornecedores de leite dispostos a entregar em pequena quantidade.
Voltando à conversa com o S. Duí, ele nos disse que ali em Bemposta ninguém mais produz nada, nem fubá, nem feijão, ninguém mais tem porcos e hoje compram tudo no mercado (o porco por exemplo vem todo do Mato Grosso). É muito triste ver uma tradição rural desaparecer desse jeito em favor da produção industrial da comida, além do prejuízo para a saúde das famílias.”
Voltando à assembléia:
Na assembléia foi mencionado como o leite orgânico consumido no Rio de janeiro, em iniciativas como o Comida da Gente, ou da produtora nossa de ghee, vem de Alagoas, o que é um absurdo pela distancia e pelo impacto ambiental.
A definição que fizemos foi que seria importante apoiar este laticínio através da compra da Rede Ecológica como um todo, e ir paralelamente ajudando no processo da transição agroecológica. Isto envolve a articulação com técnicos e pesquisas que subsidiem estes agricultores, o que a Rede também tem mais facilidade. Esta transição agroecológica poderia tomar a forma de um projeto apoiado financeiramente pela Rede Ecológica e parceiros, na medida em que o voluntariado não dê conta de todas as necessidades.
Importante junto aos consumidores é alertar para as ressalvas, mas destacando que certamente é um produto muito melhor do que a das grande empresas. Os produtos são de excelente qualidade. Os consumidores escolhem sabendo das restrições.
Fica muito claro, que se não acontecerem apoios para este segmento, ele deverá acabar, não consegue se sustentar. Daí a importância de reforçar estes produtores através da compra, entre outros.
Somos uma rede de transição, tanto no que se refere aos produtores, quanto aos consumidores, que ao entrarem, vão se dando conta da complexidade do assunto e da necessidade de botar a mão na massa, inclusive de colaborarem financeiramente.