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Brasil é um dos maiores responsáveis por emissões de nitrogênio do mundo

RIO
Um grupo internacional de cientistas mapeou, pela primeira vez a pegada global de nitrogênio. Publicado nesta segunda-feira, dia 25, na revista “Nature Geoscience”, o trabalho de universidades australianas e japonesas revela que apenas quatro países são responsáveis por quase metade das emissões desse gás. Estados Unidos, China, Índia e Brasil têm uma pegada equivalente a 46% do nitrogênio do planeta. Isso não significa que eles emitem toda essa parcela, mas, sim, que, somando-se o que é diretamente emitido aos bens comprados de outros países — e produzidos com liberação de nitrogênio —, chega-se a esse resultado.

O estudo mostra que não devemos nos preocupar apenas com a já tão conhecida pegada de carbono. Ainda pouco discutida, a pegada de nitrogêncio foi a que mais aumentou desde o início do século passado. De acordo com os autores, a poluição gerada pelo nitrogênio a partir da atividade humana cresceu seis vezes desde a década de 1930 — e dez vezes nos últimos 150 anos.

O consumo de commodities da agricultura, sejam elas produzidas no próprio país ou importadas de nações em geral mais pobres, é o grande responsável por aumentar essa pegada. Tendo analisado 188 nações, a pesquisa mostra que 25% da poluição causada pelo excesso do gás está relacionada com a produção de alimentos e bens destinados ao consumo internacional.

FERTILIZANTES E COMBUSTÍVEIS FÓSSEIS SÃO OS VILÕES

O nitrogênio simples (N2) compõe 78% do ar na atmosfera, sendo extremamente estável e só absorvido pelas plantas por meio de bactérias. O que não é aproveitado pela vegetação volta ao ar como gás, o que, no ciclo natural, acontece em quantidades equilibradas. No entanto, desde a revolução industrial, o homem vem liberando nitrogênio reativo — sintético — na atmosfera a partir da queima de combustíveis fósseis. E, nos últimos 150 anos, para desenvolver a agricultura, o nitrogênio tem sido usado na forma de fertilizantes.

O problema é que, nesses casos, grandes quantidades são perdidas e retornam à atmosfera. Quando elas reagem com vapor d’água no ar, dão origem à chuva ácida ou ao óxido nitroso (N2O), um dos gases de efeito estufa. Isso acontece porque o nitrogênio reativo interage mais facilmente com outros elementos químicos, contribuindo para uma série de problemas ambientais, como a poluição do ar e a acidificação do solo.

A pesquisa destaca que a grande maioria das emissões vem da agricultura, mas também dos transportes e da geração de energia. Co-autora do estudo, a professora Arunima Malik, da Universidade de Sidney, ressalta que os países importadores de nitrogênio são quase exclusivamente aqueles com alto grau de desenvolvimento.

— Nações de alta renda são responsáveis por mais de dez vezes as emissões das nações mais pobres. Isto reflete o aumento do consumo de produtos de origem animal, alimentos altamente processados e bens e serviços de uso intensivo de energia — disse Arunima, que fez o trabalho ao lado de pesquisadores da Universidade Nacional Yokohama e da Universidade de Kyushu, ambas no Japão.

RESPONSABILIDADE DESIGUAL ENTRE OS PAÍSES

O estudo demonstra uma grande disparidade entre os países desenvolvidos e aqueles pobres ou com certo desenvolvimento. Em média, por exemplo, cada pessoa na Libéria e na Papua Nova Guiné foi responsável por menos de 7 kg de poluição causada por nitrogênio reativo todo ano. Enquanto isso, cada pessoa em Hong Kong e em Luxemburgo foi responsável por mais de 100 kg de poluição anual.

Os países desenvolvidos geralmente importam muitos produtos que liberam nitrogênio de outros lugares. Assim, nações como Japão, Alemanha, Reino Unido e os EUA têm pegadas per capita de nitrogênio duas vezes maior do que a quantidade que eles produzem localmente. A única exceção foi a Austrália, que exporta uma grande quantidade de gado, o que significa que essa pegada recai sobre outros países.

— Políticas públicas são necessários para integrar o nitrogênio reativo em rotas de abastecimento a nível mundial, a fim de reduzir a poluição — comentou o professor Manfred Lenzen, também da Universidade de Sidney. — Sabemos que as emissões de nitrogênio reativo estão aumentando, assim como as emissões de carbono, à medida que as populações se expandem. Estamos agora analisando as tendências, como o aumento da riqueza e do consumo, e olhando com atenção para os diversos setores responsáveis pela poluição por nitrogênio.