
Conhecemos dois produtores que tiveram acesso à terra através de uma organização urbana que compra coletivamente terras, arrendando a baixo custo a jovens que queiram produzir de modo orgânico. O contexto agrário da França é muito diferente: a terra é menos concentrada, mas vem se concentrando,
ficando muito difícil de ser comprada, em função da dominação dos proprietários da estrutura administrativa que regula o acesso à terra. A Terre de Liens (Terra de Laços) é uma associação especializada no acesso coletivo à terra, que traduz a visão da terra como um bem comum, pois tem em seu estatuto que as terras compradas por eles não podem ser vendidas.
Um dos visitas (Olivier) é um agricultor-padeiro que abastece uma AMAR, planta o trigo com o qual faz o pão e vende nos mercados locais. Quando começou a vender o pão diretamente passou a conhecer consumidores e através deste conhecimento conseguiu uma terra onde pudesse plantar. As terras nesta região são predominantemente voltadas para grãos, especialmente milho para ração. A Bretanha é grande produtora de aves e porcos e importa soja do Brasil, em grande escala.
Outro produtor jovem foi Regis, que nos recebeu para um gostoso almoço ao ar livre, e já esteve no Brasil para um chantier. Recentemente conseguiu terra com um parceiro através da Terre des Liens, para se dedicar a produção de grãos, em especial trigo orgânico para a confecção de farinha de trigo, uma das bases da alimentação da região, Pão. Querem processar o trigo e produzir a própria farinha e com o farelo estão planejando produzir frango de maneira autônoma, tanto dos insumos quanto do abate a ser feito na propriedade, que dificilmente é autorizado pelas autoridades sanitárias, que está sendo questionado.
Regis durante alguns anos tentou reunir pessoas para fazer esta empreitada coletivamente, mas ao final conseguiu apenas para a etapa de execução um parceiro.

A propriedade que encontraram foi comprada por Terre des Liens, e produzia leite de uma maneira intensiva e convencional. O proprietário, em questionamento da forma de produzir adotada durante todos estes anos, acabou escolhendo a dupla porque achou o projeto importante. Tem acompanhado a transição, que resultará na retira dos bois até o inicio de 2019, preparando o espaço para seu novo funcionamento. O está bulo vai ser usado como espaço de deposito e secamento dos grãos.
Regis se tornou um associado da iniciativa Atelier des paysans, que instrumenta agricultores para se tornarem independentes em relação aos equipamentos que precisam. Para isto, realizam oficinas, nas quais os próprios agricultores constroem seus equipamentos. É uma organização presente em todo o país, que estava buscando um espaço fisico permanente na Bretanha onde possa realizar os cursos. Esta iniciativa se aproxima muito do que estávamos buscando trabalhar através do projeto com a Apac e MST.
Visitamos uma produtora, que recentemente começou a produzir hortaliças orgânicas na terra dos pais que eram agricultores convencionais. Ela tinha feito a oficina do atelier Paysan, e confeccionado parte de seus implementos agrícolas. Toda a família trabalha junto, os pais e o marido.
Outro conjunto de visitas estava relacionado com a organização pela Amar em parceria com a prefeitura de Volta Redonda, do II Fórum alimentação, água e bens comuns que será realizado nos dias 28 a 30 de novembro em volta Redonda. O primeiro fórum foi realizado na cidade de Pinheiral, na gestão de José Arimatéia a frente da prefeitura em 2016.
Como um dos temas centrais do Fórum é a água e Arimatéia é atualmente presidente do Conselho de Bacias Hidrográficas do Vale do rio Paraíba do Sul, foram feitas trocas com a secretaria de meio ambiente da prefeitura de Concoret, onde tem também uma associação de defesa do meio ambiente, abastecimento das escolas.É uma pequena vila histórica, que estava tendo várias de suas casas abandonadas, mas que através de um trabalho de visitação e articulação tem conseguido recuperar a presença nestas casas. Nas escolas se dá muita importância a alimentação e a interação com produtores locais, tornando sua realidade próxima às crianças.

Outra troca foi feita com a prefeitura de Dinan, onde tem a associação “coeur d’émeraude”, promotora de um parque natural regional, trabalhando sobre a relaçao qualidade da agua e agricultura. Este tipo de parque permite a permanência dos moradores e com eles e com as autoridades foi estruturando ao longo de anos seu plano de funcionamento.
Outro interesse da prefeitura de Volta Redonda (representada pela secretaria de meio ambiente, Joaquim), foi o melhor conhecimento da organização das feiras e mercados organicos em Rennes. Foi feita uma visita com representantes …
Fica claro que há uma preocupação na organização de espaços de venda direta. Visitamos um supermerado organico que tem ganho relevancia na França, uma cooperativa que se preocupa em comprar de produtores locais. Mas vê-se que existe enfase a presença de feitas diretas do produtor. Também a Amap, como uma iniciativa nacional que lembra em alguns aspectos a Rede Ecológica e que se preocupa com agregar ao redor de um ou mais produtores, consumidores que pré-bancam a produção, e se alinham com suas necessidades.
Outra experiencia importante foi estarmos na exibição de filmes com debates na cidade. Existe um coletivo chamado Collectif Brasil, que apresenta especialmente no mes de outubro filmes brasileiros com debates. No caso foi mostrado o filme Hotel Cambridge, que mostra a história de uma ocupação e evacuação de moradores. Seguiu-se um debate em que ficou claro que em escala diferente, na França também existe esta situação, especialmente em relação a refugiados, os sem papéis, que passam por situações muito dificeis, também ocupam espaços para moradia.
Importante a exibição do filme Mistica, que apresentou atividades do centro cultural Conexão das Artes em Anchieta . Foi mostrando a relação estreita que existe entre o centro e o assentamento terra prometida, a importância da musica das festas, das danças, da capoeira. Houve um pequeno debate em que MST falou de suas dificuldades e desafios, e ficamos a pensar como desenvolver mais fortemente a relação de nossos consumidores com questões como a presença de inumeros areais na área, as milicias, que apenas poucos conhecem. Fica clara a necessidade de irmos mais frequentemente visitá-los, assim vendo de perto o que está sendo vivido.
No ultimo dia foi feita uma reunião para discutir a programação do II Fórum. A versão deste ano terá a presença de representantes de Burkina Faso. Tivemos uma reunião com um representante de uma ONG que atua em Burkina Faso, que trabalha com agricultores possibilitando a transição para a agricultura orgânica, priorizando autonomia e consumo local, mas também produzindo soja orgânica para exportação, o que tem possibilitado o financiamento de equipamentos e estrutura local para abastecimento local. Diversos pontos em comum foram identificadas entre esta iniciativa de Burkina Faso e nossas representações.

O II Fórum será preparatório para um terceiro, maior, que acontecerá em 2019 em Burkina Faso com participação de delegação da Bretanha e brasileira.
Um dos objetivos da viagem da Rede Ecológica foi buscar apoio para a realizado do seu projeto …
Na prefeitura de Rennes, foi falado um pouco sobre o mesmo, e ficou-se de encaminhar o projeto para que eles possam subsidiar com caminhos que possam auxiliar.
A AMAR indicou com o principal parceiro o Atlier/paysan, e nas conversas vimos que de fato este seria um parceiro importante, que já tem uma metodologia desenvolvida com muita afinidade com nossos objetivos. Como a sede do Atelier Paysan está distante, e eles estavam presentes no Salao Bio que mostrava iniciativas importantes de ação no campo buscando a agricultura organica, fomos a este salão, conversando com uma das pessoas da direção nacional. Nesta conversa se aventou a possibilidade de haver um intercambio, no sentido de que membros da equipe venham ao Brasil para um repasse da metodologia, e o inverso também aconteça. Profissionais ligados a confecção de equipamentos como o Italo poderiam conhecer a metologia proposta pelo Atelier em suas oficinas.
O encerramento do intercambio aconteceu através da festa organizada pela Amar. Num paiol de feno foi criado um ambiente muito bonito e festivo, e vieram ex-integrantes de chantiers passados, amigos e associados da Amar, além de nos. Foi muito bonito ver o clima de comunhão que acontecia.
Houve um momento de compartilhamento, visando situar o momento politico brasileiro, que foi bem rico. Foi também apresentado um vídeo dirigido por uma associada com contatos com ex-integrantes dos chantiers que revelou o quanto foram significativas estas viagens, mudando para uma maioria sua visão de mundo, passando a entender melhor a situação do campo brasileiro, e se sentindo contribuindo em ajudar.
Um conjunto tocou, a frente com uma ótima cantora animando a festa, que teve muitos dançando e confraternizando.
É muito bom termos em outro continente parceiros tão dedicados à causa do Brasil!