Prezada(o) s amiga(o)s,
1. Vários queijos vieram com problemas, mas isso está sendo visto por nossa acompanhante de nosso produtor, que, inclusive, está querendo organizar uma conversa a respeito. Quem tiver interesse, favor entrar em contato com roseprazeres@gmail.com . Conforme sempre fazemos, haverá um ressarcimento em produto ou em dinheiro a quem tiver tido problemas com os queijos.
O relato da recente visita (20 a 23 de novembro) a estes produtores é muito importante para contextualizar a situação dos mesmos:
“Visitantes: Rose Prazeres, Paulo Mascarin , Milla Mascarin (filha) e Carlos Mendonça
Cidade visitada: Medeiros – MG. Distância do Rio 750 km. 50 anos de emancipação. População 4 mil habitantes, sendo aproximadamente 500 famílias produtoras de queijo artesanal.
No dia 20 de novembro de 2014, saímos do Rio de Janeiro rumo a Minas Gerais, com o propósito de visitarmos a propriedade dos produtores de queijo Canastra LH (Luciano e Helena) Chácara Esperança, que fica situada em Medeiros –MG. Além de consolidarmos a parceria entre a Rede Ecológica com o produtor da Chácara Esperança, tínhamos outra missão que era a de visitar outros produtores de queijo artesanal na região e incentivá-los a produzir os queijos adotando práticas agroecológicas.
Chegamos a Medeiros no dia 20 por volta das 18 horas e fomos à Chácara Esperança. Após uma rápida conversa, fomos com o Luciano a uma reunião da Aprocame – Associação dos Produtores de Queijo Canastra de Medeiros. A pauta da reunião era exclusivamente para definir sobre o futuro do Centro de Qualidade do Queijo Minas Artesanal, construído há 11 meses.
Conforme carta encaminhada aos órgãos de fiscalização, cuja cópia encontra-se em anexo, os produtores consideram fechar o Centro de Qualidade, desestimulados por intermináveis exigências e imposições feitas pelo governo desde sua criação. Tais imposições são feitas a partir da legislação que regulamenta a indústria, não devendo se aplicar à produção artesanal. Cerca de dez dias antes de nossa visita, o órgão de fiscalização IMA – Instituto Mineiro de Agropecuária – havia fechado o Centro de Maturação (com mais de 1.500 peças em maturação) e as queijarias de cada um dos produtores associados (7, no total), sob a alegação de terem sido encontradas bactérias nocivas em uma amostra de queijo em maturação no Centro de Maturação.
Na reunião, fizemos uma breve apresentação da Rede Ecológica, ouvimos alguns produtores que desabafaram suas angustias e preocupações com relação à situação que estão enfrentando. Houve uma boa sintonia entre nós e os produtores, que nos convidaram a visitar in loco suas queijarias. Nos dois dias seguintes, assim o fizemos.
Fazem parte da Associação: sete produtores:
01 – Valter Caetano Leite e sua esposa Vanice de Morais
02 – João Teixeira de Morais (sua esposa falecida recentemente)
03 – Márcio José de Souza e sua esposa Deusa
04 – Nereu Ramos Martins e sua esposa Luzia
05 – João Bosco Martins e sua esposa Maria José
06 – Geraldo Martins Ribeiro e sua esposa Magda
07 – Reginaldo Miranda de Andrade e sua esposa Eliane
Dia 21 de novembro: Logo pela manhã, fomos conhecer a nascente Geografica do Rio São Francisco, que fica localizada a 65 km da cidade de Medeiros, tivemos a honra de sermos guiados pelo Sr. Moreno, nascido e criado em uma fazenda em Medeiros, e hoje trabalha para a Prefeitura da cidade, grande conhecedor das propriedades.
Após o almoço fomos visitar a propriedade do Sr. Valter Caetano Leite (Valtinho) e sua esposa Vanice (filha do produtor João Morais). A propriedade fica muito próxima a cidade. Ele e a esposa produzem o queijo. Nos confessaram que estavam muito aborrecidos com a situação atual além das dificuldades que geralmente enfrentam ao escoar a produção.
Nossa segunda visita foi à propriedade do Sr. João Teixeira de Morais, também localizada próximo à cidade de Medeiros. Ele nos mostrou o gado, suas instalações, inclusive a queijaria, que estava lacrada com fita adesiva. Sua propriedade é bem organizada, estruturada e ele vive lá há muitos anos. O Sr. João estava muito abalado com o falecimento recente de sua esposa.
Vive só. Declarou que após a criação do Centro de maturação ele viu maiores possibilidades para a venda da produção, agregou mais valor ao queijo e maior tranquilidade pois saíram da ilegalidade. Também considera as pessoas da Associação como sua família. No momento está sofrendo muito pela interdição de sua queijaria, além de prejuízos ele também sofre por danos morais. Disse também que está pensando em fechar a queijaria e vender seu gado, caso esta situação se prolongasse.
A terceira propriedade visitada foi a do Sr. Marcio José de Souza, e sua esposa. Ele possui 03 filhos ainda jovens. Sua propriedade é muito bem estruturada possui ordenha mecanizada segue todos os padrões de higiene necessários, dedica todo o seu tempo cuidando da produção do queijo, sempre buscando melhorar fazendo cursos de capacitação. Ele nos levou para ver o por de sol um uma colina, onde tivemos uma linda e ampla visão da região.
Também neste local que ele faz a captação de água para e sua propriedade. Comentou que estão tendo problemas com a seca. Tomamos um maravilhoso café com pão de queijo feito por sua esposa e degustamos o delicioso queijo feito na propriedade.
Sábado dia 22, fomos guiados pelo Sr. Elcio, funcionário da Aprocame, excelente astral e contador de causos.
Quarta propriedade visitada: Nereu Ramos e Luzia, fica no Município de Tapiraí. Fomos também muito bem recebidos pelo casal. Possuem 02 filhos uma filha de 18 anos que está cursando a Faculdade de Contabilidade, e um filho de 6 anos. Possuem uma queijaria em conformidade com as demais visitadas. Fomos visitar o pomar com muitos pés de jaboticaba, jambo, limão. Tudo com muita simplicidade. A Luzia, muito amável, nos convidou para ver seus trabalhos manuais – tapetes e bordados, uma beleza-, e com muito orgulho colocou todos os troféus ganhos com os queijos para fotografarmos. Disse que o seu sonho é de construir um escritório com um computador para sua filha fazer os controles da produção e também expor os troféus ganhos nos concursos de queijos artesanais, que são muitos. Sonha também em reformar a casa que é muito antiga e o telhado precisa urgente de reparos. Pensa em separar uma área para camping para receber os turistas que são muitos. Tomamos um café com biscoitos, queijo com rapadura e degustamos o queijo da propriedade, uma delícia!
Quinta propriedade visitada: Sr. João Bosco e sua esposa Maria José. Fomos recebidos pelo casal que possui uma bela propriedade muito bem estruturada. O Sr. João nos disse que adequou a produção de queijos em conformidade com as exigências sanitárias, disse que a exigência de clorar a água altera o sabor do queijo, além do que acha que faz mal a para a saúde, mas obedece. Ainda sobre a água disse: “em toda minha vida eu nunca vi tanta seca, nunca viu um ano assim”.
Impedidos de produzir o queijo, estão entregando o leite para uma cooperativa por R$ 0,80 centavos o litro, sem nenhuma garantia de quando vão receber o pagamento. Conseguiram emprestado um resfriador para armazenar o leite até ser enviado para a cooperativa, isto irá onerar e muito a conta de luz. Recentemente construíram uma capela com ajuda da comunidade. Fomos visitá-la. Tomamos um delicioso café com pão de queijo e degustamos o seu queijo. Que maravilha.
Sexta propriedade visitada: Geraldo Martins Ribeiro e sua esposa Magda. O Geraldo é irmão do João Bosco, e sua a propriedade é vizinha. O casal possui 02 filhos, um de 16 anos que ajuda na produção dos queijos, e uma menina de 6 anos. A propriedade é bem estruturada, bem semelhante às demais visitadas. Conversamos bastante sobre a produção dos queijos e as dificuldades que estão enfrentando.
Sétima propriedade: Reginaldo Miranda de Andrade – infelizmente não foi possível visita-la pois a propriedade fica mais distante e ainda faltava visitar a propriedade do Luciano e Helena.
Chácara Esperança – Luciano e Helena, seus filhos Toquinho (21 anos) que trabalha muito na propriedade e Alice (19 anos), estudante de filosofia em Uberlandia. Pernoitamos 02 noites na propriedade e tivemos a oportunidade de conversamos muito sobre a situação que todos os produtores da região estão enfrentado. A produção de Luciano e Helena está dentro das condições que são exigidas para a produção de um queijo com qualidade. Visitamos a queijaria, tudo com excelentes condições de limpeza e higiene. Possuem também ordenha mecanizada. O gado é bem tratado e são os únicos da
região que adotam práticas agroecológicas. Luciano e Helena estão em constante processo de aperfeiçoamento da produção e investem muito tempo e recursos para produzir sempre com qualidade. Eles tratam os animais com homeopatia e possuem bastante conhecimento a esse respeito.
Recentemente tiveram problemas com moscas que entraram na queijaria por um furo que havia em uma janela telada, colocando ovos em alguns queijos que estavam maturando. Este problema foi sanado. Estão pensando em adquirir uma cortina especial para instalar na entrada da queijaria para impedir que as moscas entrem. Também pesquisam defensivos orgânicos para reduzir as moscas que se reproduzem muito com o calor. Apesar dos grandes desafios, eles estão convictos de que estão no caminho certo. Recebem visitas de pessoas de várias regiões para degustar os seus queijos que são muito apreciados e elogiados por produzirem um queijo com tamanha qualidade.
Conclusão que obtemos da nossa visitação:
Nossa visita foi muito proveitosa. Tivemos uma visão geral da situação atual que os produtores queijo de Medeiros estão enfrentando, conhecemos um pouco de suas lutas e dificuldades.
Infelizmente a produção do queijo artesanal sofre comparações com os queijos produzidos pelas grandes indústrias, que são processos diferentes de produção: leite cru versus pasteurização que altera o sabor. Como diz o Luciano: “o queijo é vivo, precisa do tempo de maturação para ficar pronto para o consumo”.
Tentar enquadrar o queijo artesanal dentro do processo de fabricação e da lei do queijo industrial, será impossível, pois o resultado final fará desaparecer os pequenos produtores que vivem em função da produção do queijo que é o elemento central de suas vidas há séculos, em muitas regiões, sendo milhares, não só em Minas mas em todo o Brasil. Esta situação, nos remete ao pensamento de que existe um poder paralelo de interesses econômicos e políticos de grandes industrias, tentando impedir a produção e comercialização de queijos pois o volume é muito grande (e incomoda muita gente). Somente em Minas Gerais fala- se em um número em torno de 30.000 famílias produtoras com um volume de produção anual de aproximadamente 70.000 toneladas de queijo.
A fiscalização está criando um constrangimento muito grande impondo infindáveis exigências criando assim uma situação insuportável, provocando medo junto aos consumidores. Os produtores não se opõem a cumprir as exigências da legislação sanitária, mas querem que tenham bom senso. Na fala de um dos produtores: Eu nunca ouvi falar de um hospital para tratar de pessoas que foram contaminadas por comer queijo artesanal, mas conheço muitos que tratam de doenças da nova civilização. Pesquisadores da Universidade de Viçosa-MG, fizeram testes e foi comprovado que no queijo existem bactérias boas que combatem as ruins, por este motivo o queijo deve ser submetido a um período de 21 dias para maturação. Já em outros países o tempo de maturação deve ser superior levando até 60 dias em função do clima ser mais frio .
Em algumas falas, foi abordado a possibilidade de criar uma campanha para elaborar uma lei específica para a produção do queijo artesanal que contemple uma serie de ações incluindo o pagamento de menos impostos para a cooperativa. Mais produtores iriam se beneficiar, saindo da ilegalidade, exercendo práticas corretas de higiene, reduzindo o risco de contaminação e aumentando a segurança para os consumidores, que tem o poder de escolhas, garantindo uma opção para osconsumidores apaixonados por uma alimentação viva e saudável como o Queijo Minas Artesanal.
Nada como ver, ouvir e sentir um pouco as emoções que os verdadeiros atores (produtores) vivem no seu cotidiano. Como é prazeroso conhecer pessoas totalmente integradas à natureza, que tiram da terra o seu sustento. Gratidão a todos que nos acolheram e nos confiaram uma cunha de suas convicções”.