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Relatório parcial da Oficina Territorial da Região metropolitana

Relatório parcial da Oficina Territorial da Região Metropolitana – LINHA do Tempo. Trata-se de um trecho da versão preliminar do Relatório de Sistematização da Linha do Tempo, construída na Oficina Territorial de 06/08.
Esta oficina faz parte de um projeto desenvolvido pela Embrapa agrobiologia – projeto Comboio –
Este trabalho busca resgatar a história de cada um dos integrantes presentes na Oficina, em relação a seu vínculo com a agroecologia. Seguem alguns depoimentos que foram muito reveladores sobre a história destas pessoas e sua vinculação com agroecologia. Em geral são lideranças deste território.
Foram criados 2 grupos, e abordaremos algumas das apresentações.

Iniciou com uma rodada de apresentação dos participantes com indicação de ano em que iniciou o respectivo conhecimento a respeito dos temas da resistência na agricultura, luta pela terra, contato com agroecologia. Sequência de depoimentos orientada para explanação das vivências mais antigas para as mais recentes.

1955 – Sr ª Maria do Carmo. Tenho lembranças da infância na lavoura no Estado de Sergipe. Acompanhava a mãe nas plantações. A família se mudou para o Rio de Janeiro. Se afastou da agricultura, mas depois voltou. Lembra da ameaça dos bois dos vizinhos, que entravam e comiam as plantas; tinha o roubo de madeira no sitio, o pessoal entrava para tirar árvores. No Rio foi trabalhar com o sogro. Eram vizinhos da área em que ocorreu a ocupação de Marapicu (Nova Iguaçu). Em 1992 entraram para a área do assentamento, comprando seu lote de terra.

Sr Domingos (1961) – Morava em Campo Grande, no Pedregoso; lembra que no final da época da guerra era tudo mato naquela região; tinha também os laranjais; seu pai não podia ver uma área com mato, uma área abandonada, que se animava a fazer uma horta, plantando alface, pimenta… Conseguiu trabalho fazendo valas, assentando manilhas, abrindo terrenos, era o trabalho de tirar a água para abrir a via Marapendi, jogando a água para o mar. Se mudou para Nova Iguaçu, onde se casou com Da. Maria do Carmo. Veio para Marapicu, morar no Bairro Ipiranga, foi quando viu acontecer a invasão em Marapicu. Morava perto da entrada da área. Era os anos 1980, quando viu o povo chegando na fazenda, dando início a Campo Alegre. Mal entrou e algumas pessoas já começaram a vender a terra. Juntou dinheiro e também foi fazendo mudas de árvores, que deixava perto de sua casa. Em 1992 conseguiu comprar um lote, era dia 22/10/1992 – aniversário da esposa.’ Fomos ver a área que tinha 2 pés de mangueira, 3 pés de jabuticaba…” no dia seguinte já começou a
plantar mais árvores e bambus. Queria criar um ambiente gostoso de viver. Não gosta do uso de trator para preparar sua terra; não usa veneno e radiação, só a solar.

Cida (1961) – sua trajetória é marcada pela volta pra terra e pela resistência. Nasceu na Pedra de Guaratiba, no caminho da União. Lembra que ia para a roça, acompanhar o avô; eram agricultores:” eu subia nas árvores para colher manga, caqui, colhia banana, que levavam para a feira, produzia muita taioba. Aos 13 anos, fomos para a cidade, morar em Parada de Lucas. Mas o avô deixou o sítio em uso e frutos… mas sua mãe já não queria mais morar na roça. Na Cidade conseguiu estudar; foi morar em São João de Meriti, casou, separou e começou a se envolver com o movimento por moradia – movimento urbano. Conheceu o curso da Rural em 2010, mas até então não conhecia a agroecologia. No curso que fez, tinha que escolher entre a linha da agroecologia ou da sociologia; escolheu a primeira. Fez seu trabalho acadêmico com as crianças da área urbana. Seguia estudando. Em 2014 passou um ano no Assentamento Marli pereira da Silva em Paracambi, foi ai que começou a pensar em voltar para o sítio deixado por seu avô; os tios todos estavam
lá mas só fizeram suas casas, não plantavam. Em janeiro de 2015 retornou para o sítio que foi do avô. Fez o curso da Licenciatura em Educação do Campo e também de Residência Agrária, ambos na UFRRJ.

Miriam (1980) – fica emocionada com a trajetória da Cida, com o simbólico que esta volta ao campo representa. Isto a faz lembrar da generosidade e solidariedade dos agricultores com os seus pais, durante a primeira guerra mundial na Alemanha, momento em que passaram fome, e conseguiram se suprir minimamente graças a este vínculo.

Na minha trajetória pessoal foi nos anos 1980 que comecei a perceber a questão do veneno, que a gente tem que se organizar para comprar produtos sem veneno. Vivenciei a experiência da COONATURA, a partir de 1980, quando uma amiga me passou a associação, que no final dos anos 70 se organizou como associação de consumidores. Isto numa época em que ninguém falava disto, estimulou produtores a plantar sem veneno, comprando coletivamente deles. foram 20 anos de aprendizado. Infelizmente no fechar do século a Coonatura entrou em crise. Eu nao participava das assembleias, da vida politica da instituição, mas no período de crise despertei, e tentei ajudar, mas não tinha muito o que fazer, era tudo muito difícil! Nessa época só tinha a feira da Glória, como alternativa para comprar produto orgânico. Eu já tinha uma ligação com a questão ecológica. A ideia da rede trouxe a possibilidade de tentar mexer nisso (iniciamos no ano 2001). Abordamos o pessoal do Rio da Prata, que no caso ainda demoraria a atender. Tinha a Beth Linhares que estava fazendo um trabalho em Trajano de Moraes e conhecia agricultores como a Sebastiana, que não conseguiam vender seus produtos na sua cidade; resolvemos ajudar, trazendo uma vez de carro os produtos que ameaçavam se estragar para vender no bairro (Urca) (ver no site www.redeecologicario.org o texto : sebastião se une a sebastiana) Percebemos que conseguimos rapidamente escoar aquela produção. Começamos a pensar em organizar uma compra coletiva. Mas as pessoas não queriam discutir ou planejar o assunto, mas elas queriam comprar, e assim fomos nos desenvolvendo, até os dias de hoje, em que a participação é uma tônica importante, em que cada um foi colocando um pedacinho de si na história.

Fomos caminhando da Zona Sul: Urca, Humaitá; para a Zona Oeste: Freguesia, Campo Grande; abrindo Núcleos, que se espalharam para outros municípios: Niterói, Itaipava/ Petrópolis; Nova Iguaçu; que abriu um novo panorama, inclusive estimulando para se criar um I curso de capacitação para formação de novos grupos de compras agroecológicas.
O importante é que criamos uma saída para não comprar do agronegócio. A pessoa que se envolve com a Rede Ecológica consegue se planejar para sair da rede de supermercados. Na lógica da compra dos produtos frescos, estamos tentando chegar cada vez mais perto dos produtores; auxiliando a pensar uma logística facilitadora, que envolve ter motoristas; de forma que a rede representa um escoamento garantido das mercadorias, uma compra certa, de que o produtor vai receber de forma justa pela produção que entregar, mesmo que as quantidades não sejam muito grandes. A gente busca consumidores com consciência sobre a importância de estar junto com os agricultores no campo; vemos a aliança campo-cidade acontecendo, com critérios.

Alexandre – (1991) Um marco na minha trajetória foi o contato com as famílias que conquistaram o Assentamento Eldorado/ Seropédica. A luta pela fazenda Casas Altas reuniu os filhos de Campo Alegre, pessoas como a Morena, O Vadinho, o José Lima, que vieram em busca de conquistar sua própria terra e na ocupação se reuniram com os meeiros que eram subordinados ao Jorge Garcia, numa área que este e o Manuel Maluco usavam para engordar gado, na vizinhança da Rural. Antes, nos anos 1980, outra tentativa de ocupação de terras na Rural fez com que o reitor da época chamasse a polícia militar para retirar as famílias – que foram transportadas para Conceição de Macabu, instituindo o Assentamento São Domingos. Na ocasião da ocupação do Eldorado, outra qualidade de reitoria na Rural deu todo apoio às famílias, ajudando na retirada do gado dos grileiros das áreas ocupadas. Nisso a gente percebe a importância do apoio institucional. Em 2013, voltando ao Eldorado, das mais de 70 famílias que ocuparam, apenas 12 permaneciam na terra. O Assentamento foi cortado pelo Arco metropolitano, que desapropriou uma faixa de mais de 100 metros de largura, pagando em R$ 1,79 o M² aos agricultores desapropriados. Uma pedreira avançou sobre os lotes do Assentamento e por fim, o lixão de Gramacho foi transferido para a entrada do Assentamento, promovendo doenças, aumentando o fluxo de pessoas estranhas e de roubos na área e contaminando o terreno, a água e o ar, sobre a região em que está o aquífero Piranema. Apesar de todas as denúncias e posicionamentos das instituições locais, essa realidade está lá instalada.

Edson (1999) – Fui criado no complexo do Alemão, um ambiente muito voltado para a cultura da violência; onde o tráfico apresenta uma série de facilidades para criar bandidos. Em 1998 eu estava saindo do tráfico; antes em 1997 o Luiz Poeta vai para lá e começa a luta pela serra da Misericórdia; a gente nem sabia o nome dela (da serra); Uma moradora, Ana, tinha a ideia de cuidar daquela área, ela se junta com o Luiz Poeta. O Verdejar nasce na linha ambientalista. Em 1999 eu estava chegando no Verdejar. Fizemos um mutirão e tiramos bastante lixo da área, uns quatro caminhões de lixo; com a área limpa o pessoal da Sérgio Silva começou a se interessar pela área e começou a invadir. Eu fui atraído pelo horizonte de vida que o trabalho do Verdejar trouxe. Para disputar a área, o Verdejar começou a fazer uma horta florestal. Luiz se dedicou a esse trabalho, que salvou minha vida. Foi em 2005 que o poeta conheceu a agroecologia, a AS-PTA, aí começou a introduzir o assunto da agroecologia. Fomos ao Fórum social Mundial. Em 2007 vivemos o maior incêndio que a gente já viu lá. Destruiu tudo e aí o Poeta começou a plantar o 1º SAF (sistema agroflorestal). Começou na perspectiva de que a produção de alimentos servisse de limite para expansão dos loteamentos, mas também de atrativo para os moradores, a envolvê-los na causa da preservação. Depois da queimada nós intensificamos o trabalho. Hoje temos a horta certificada; vendemos nossos produtos na feira de Olaria; e estamos nos organizando para criar um curso de formação de produtores ali e na Pedra do Sapo. Estamos em processo de reorganização, nossa produção está baixa; o que temos conseguido é afirmar nossa identidade, com os eventos, de forma que mesmo o pessoal do tráfico passou a respeitar a área da agrofloresta. A agrofloresta virou argumento para preservar aquela área, formando um limite, no diálogo com o poder local. Lá a agroecologia não é um empecilho, mas sim um estímulo.

Padre Geraldo – Nasci na terra. Os pais lavradores, não eram donos da terra, eram meeiros, em Bom Jardim/ Friburgo. Com 8 anos vim para a Cidade. Minha volta para a terra ocorreu nos anos 1980. Em 1984 ocorreu, aqui nessa casa (Cenfor), com o apoio de D. Adriano, uma organização que marcou todo o Rio de Janeiro. Os preparativos para a ocupação de Campo Alegre, uma área com 3.000 hectares de terra, que foram divididos em 06 regionais, a preparação ocorria nas reuniões aqui, em Nova iguaçu (Cenfor0. Na noite em que foram para lá, passaram primeiro na catedral, para depois seguir para esse local, que era conhecido como uma área de desova. Um lugar longe mas que estava todo retalhado para ser loteado, já havia mais de 1.000 ditos proprietários, uma desapropriação difícil, tanto que até hoje não está concluída a questão fundiária lá.

Eu fui nomeado vigário em São João Batista de Queimados; o Padre Eduardo, que era meu superior viu que eu tinha sensibilidade para apoiar aos trabalhadores e me puxou para a pastoral da Terra; em 6 meses me colocou como assessor. Entrei em 1985 e até hoje estou na CPT e também na Pastoral da Saúde Natural, aí desde 1983, acolhendo as pessoas e fazendo trocas de experiência sobre as plantas medicinais, sempre com o trabalho de partilha, no final das atividades.

Teve um caso, na época da repressão, Don Adriano convidou o Modesto da Silveira para fazer uma palestra aqui no CENFOR, mas a palestra foi proibida e o Don Adriano avisou e me pediu para que eu suspendesse a reunião, mas não consegui avisar a todos. Essa casa ficou cheia de gente, que veio a convite dos defensores dos direitos humanos, vieram ônibus de vários lugares; tivemos que falar que a reunião foi suspensa. Lá fora tinham treze carros da polícia.

Don Adriano topava as paradas. Certa vez acolheu um pessoal que estava em greve de fome; Pessoas como o Fernando Moura, somavam com os dirigentes da CPT que se reuniam com os líderes do agricultores, aqui, na Catedral, para preparar a turma e os novos dirigentes do movimento dos sem-terra. De 1983, a 1984, foi preparada a ocupação de Campo Alegre. Apoiamos as ocupações; tudo que ocorreu depois veio a partir de Campo Alegre; esse movimento todo fez com que a gente articulasse mais a CPT no Estado do Rio de Janeiro.

Nessa história as Romarias da Terra tem sido o ponto alto da divulgação popular e da nossa proposta de afirmação do direito e das possibilidades de conquistar a terra. A última Romaria foi em Paracambi, 2010; a próxima vai ser em Campos, em 2016, no dia 24/07. A Romaria é um momento alto de encontro de todos s que lutam pela terra. (continua na próxima carta, focando nos mais jovens)