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Continuação do texto sobre os depoimentos

Ana – minha trajetória se inicia quando minha mãe saiu do Rio e veio para a Baixada Fluminense, para Caxias, na Parada Angélica; era uma ocupação urbana. Vimos aquela comunidade virar uma grande favela reproduzindo o cenário de onde nós havíamos saído antes. Aí ela encontrou um sítio e foi ser caseira lá em Caxias, onde ficamos alguns anos. A gente lá era vizinho de uma pedreira, que se expandiu e expulsou a gente de lá. Nossa opção era voltar para a comunidade urbana, mas já tínhamos um contato com a produção agrícola; então a gente foi para Magé e ocupou uma área lá que era um local de descarte de carro, em Piabetá, num lugar chamado Santa Fé, nos fundos do Porto Mauá; não sabíamos de quem eram aquelas terras. Fomos descobrindo que havia sido da Ferrovia, onde teve produção de eucalipto.

O o primeiro contato de minha mãe com a agroecologia foi em 2006, quando eu fui fazer o curso técnico em Conceição do Suruí, uma comunidade agrícola que usa muito agrotóxico; nessa época tivemos o apoio da SISV, uma ONG italiana, ligada à Igreja; entramos num projeto de Fundo Rotativo, na época em que a SISV se encontrou com a AS-PTA; lá em Magé começou a se organizar a COOPAGÉ. Em 2010 eu já tinha formado em Técnica agropecuária, quando fui indicada para o Projeto Campo-Campus; nesse curso eu tive contato com jovens de diversas comunidades, com indígenas; numa instituição de Ensino Superior. Tivemos contato com os atores da Articulação de Agroecologia do estado do RJ, com professores da Rural, e passamos a ter contato com a teoria sobre a luta pela terra, que a gente vivenciou mas não tinha clareza sobre o que era. Foram duas turmas do projeto campo-campus; teve o Encontro estadual de agroecologia na Rural, em 2010, que foi quando a gente se inscreveu na Licenciatura em educação do Campo; havia 60 vagas mas nem todas foram preenchidas. Aí em 2011 teve uma nova prova para tentar completar as vagas; vieram quilombolas, assentados, caiçaras, indígenas, e gente de ocupações urbanas; gente de São Paulo, do Paraná e do Espírito Santo, compondo a turma. Era uma atividade do Programa PRONERA. E até então, mal conhecíamos a luta pela educação do campo. Em 2011/2012 começo a acompanhar o MST mais de perto, o estágio de Vivência em Campos dos Goytacazes, no Assentamento Zumbi dos Palmares e em 2012 minha família começa a sofrer novamente ameaças de expulsão, dessa vez pela expansão de um areal, que coloca a milícia na nossa porta. Com o areal, começamos a ter falta de água; o pessoal vai saindo, mas minha família fica ali até o final, até que colocam fogo no sítio. Aí o areal comprou uma área em Surui, um sítio dentro de uma área de assentamento para que pudéssemos nos reinstalar nesse sítio. Mas a luta continuou por conta dos documentos. No geral você vê que o povo continua dependente da ideia de uso dos agrotóxicos, da monocultura, numa situação bastante contraditória com o que a gente defende. Em 2014 entrei para trabalhar na equipe da AS-PTa, na assessoria técnica, em Nova Iguaçu. Posso agora ter um outro olhar para as questões. Vi aqui que as pessoas têm muito mais respeito pelas lideranças, do que se vê lá em Magé. Aqui se sente que as pessoas sentem orgulho de ser herdeiras dessas lideranças, desses lutadores. Em 2015 a gente termina o Curso de Residência Agrária, foi em Campinas-SP, e lá considero que vi pela primeira vez o Latifúndio exercendo pressão sobre os agricultores.

Vinicius – Sabe que a luta pela terra na região vem da década de 1970, com a construção da BR 101, que cortou ao meio a parte do litoral e da montanha na região de Angra. E dentro da comunidade isto teve um impacto, porque também alguns foram mais para dentro, na serra. Na década de 1990, através dos avós, teve mais contato com o sitio, e começou a vender bananas no centro de Angra, e plantando atrás de sua casa. Milho, aipim, sempre perto de casa. A roça do avô tinha bastante coisa. Mas não conseguiu se sustentar; percebeu que a agricultura era mal vista, e foi trabalhar fora de casa. A mãe trabalhava há muito tempo na escola. O pai trabalhava na roça mas com a situação financeira ruim foi trabalhar na construção de navios e depois na usina nuclear. Aí veio o projeto PDA (do Ministério do Meio Ambiente), pelo qual eles tinham que fazer o diálogo com os mais velhos. O foco na palmeira Juçara, que estava totalmente em extinção, só sendo encontrada ainda nos quintais de casa. Na época recebeu uma bolsa de 100 reais, era um monte de dinheiro, as vezes demorava meses a chegar. Depois do PDA tocou por mais um ano. Não tinha como vender o palmito, pois tinha que ter selo e DAP. Com 18 anos conseguiu serviço na Usina Nuclear. Ficou 9 meses trabalhando para empresa terceirizada, aí resolveu sair; foi quando veio o projeto campo Campus; participou da 2ª turma. Nos trabalhos acadêmicos resolveu implantar um SAF na sua comunidade. Depois fez a licenciatura em Educação no Campo. O curso abriu muitas coisas, omo o contato com o MST, que antes só via pela televisão, sendo colocados como marginais. Foi muito aprendizado. Ficou na comunidade mais 2 anos, trabalhou como pedreiro numa obra no centro de Angra. Aí foi chamado para uma bolsa oferecida pelo NIA, com a Embrapa Agrobiologia: projeto Ambiente de Interação Agroecológica. Antes trabalhou também com educação, fazendo hortas para escolas, em áreas bem degradadas.

Betânia – Quando veio para Marapicu conheceu o Luiz Fernando de Jesus, que a levou a conhecer as reuniões da CPT, para participar das reuniões da Associação e a luta pela regularização fundiária na região. Conseguiram algumas conquistas: Marapicu hoje é o primeiro assentamento Municipal do Brasil. É importante dizer que Campo Alegre é pioneiro, que deu início a uma série de lutas pela terra; que juntou parcerias com as quais temos seguido nessa luta; para que aos poucos, cada regional consiga ter seus títulos de terra. Os desafios continuam. Se instalou na região uma empresa cujo nome é “reuso (?)”, na qual o dia todo fica um entra e sai de caminhões, depositando entulho nas áreas do assentamento; as denúncias levaram a presidente da Associação na regional Mato Grosso a ser ameaçada.

Annelise – sua trajetória começa em 2006 quando chegou e viu o Projeto com as plantas medicinais, no entorno do maciço da Pedra Branca. De 2007 a 2009 a gente fez um diagnóstico sobre a região; contribuindo com a criação da Agrovargem, no apoio à integração dos agricultores; Conseguiram em 2010 aprovar novos projetos e de lá para cá, não conseguimos ainda no INEA autorização par implantar áreas de Sistema agroflorestal sob alegação de não poder usar áreas acima da cota 100 metros. Avançamos mais na parte política do que na parte técnica; veio a luta pela DAP (declaração de aptidão ao Pronaf),quando em 2012 conseguimos as primeiras DAP’s. tem o dia do Tira-Caqui, marcado pelo dia de Tiradentes, mobilizando apoio de pessoas no Maciço; conseguiram a articulação com a Rede Ecológica; A feira da Rede Carioca de Agricultura Urbana – a Feira da freguesia. É importante destacar também o espaço atual na Rural, com a compra direta de alimentos da agricultura familiar e uma feira no campus da Rural.

Raissa – sua história com a agroecologia começa em 2006, no Capim Limão – grupo de estudantes da UFRJ; através de encontros de agroecologia, foi conhecendo os agricultores. Em 2009 começou a feira na UFRJ.