REUNIÃO DE AVALIAÇÃO 2017 E PLANEJAMENTO 2018
PROGRAMA CAMPO E CIDADE SE DANDO AS MÃOS
Dia 16/janeiro/2018, das 10 às 16:30 horas
Local: CPDA-UFRRJ – Centro-Rio de Janeiro
Participantes: Erika Molini (Botafogo), Mariana Oliveira (Caxias), Beth Bessa, Guilherme Costa, Milca Colombo e Zolmir Figueiredo (Grajau), Eva Ferreira (Humaitá), Ângela Prado (Nova Iguaçu) Bibi Cintrão e Sandra Kokudai (Santa), Lucio Lambert e Miriam Langenbach (Urca) Annelise Fernandez (Vargem Grande). Estavam ainda Márcia da Silva (aluna do curso técnico em meio ambiente da Escola Presidente Kennedy-estagiária no CAC) e Lucimar Santos Bastos (voluntária no CAC), num total de 15 pessoas.
Observação Geral:
O Programa Campo e Cidade se Dando as Mãos, da Rede Ecológica, teve seu início no final de 2016 e pode-se dizer que 2017 foi de fato o primeiro ano do Programa. O objetivo principal da criação do Programa Campo Cidade foi de estimular/ fomentar/apoiar a formação de grupos populares de consumidores na Baixada Fluminense que realizassem compras diretas a produtores também da Baixada Fluminense. Tem assim duas grandes frentes de a
Produtores: identificação de produtores agroecológicos (ou em transição) e apoio fortalecimento da produção agroecológica e da comercialização
Consumidores: identificação de potenciais grupos de consumo, formação de consumidores conscientes e apoio à estruturação de grupos de consumo.
Outro objetivo do Programa é o próprio fortalecimento interno da Rede Ecológica, enquanto movimento social que visa fortalecer a luta pela agroecologia e pela economia solidária. Pelo lado dos produtores, o programa tem favorecido a identificação de novos produtos e produtores (mais próximos), o estreitamento dos laços com produtores, o apoio à transição para a agroecologia e a certificação, o apoio ao processamento e comercialização. Pelo lado dos consumidores, o Programa tem ampliado os espaços de participação ativa na Rede e seu objetivo. Estas questões são o pano de fundo desta reunião, embora o foco da reunião será colocado nas ações específicas do Programa Campo Cidade se dando as Mãos.
Balanço Geral do Programa Campo Cidade
Seguindo a pauta, o primeiro momento focalizou os produtores:
DIAGNÓSTICO DE ALGUNS AGRICULTORES através de entrevistas realizadas por Annelise Fernandez
Foi pensado o diagnóstico dos produtores agroecológicos ou em transição. O questionário foi bastante discutido por Annelise e Bibi com a AS-PTA.
Em dez/2016 foi feita a apresentação da proposta para integrantes da associação de Fazendinha, basicamente agricultores do assentamento de Campo Alegre-Fazendinha, onde foram posteriormente aplicados 6 questionários. Em jan/2017 foi feita a apresentação em Marapicu, na sua associação, lá sendo posteriormente aplicados 3 questionários.
Nos primeiros 5 questionários houve participação de consumidores associados da Rede Ecológica.
Na Fazendinha houve mais disponibilidade dos produtores para a participação, porque alguns produtores estavam interessados na certificação para se inserir no circuito das feiras agroecológicas. Vinícius (filho de produtor) tem interesse em viver da agricultura (tem trabalho também fora). A maioria dos produtores está vinculada a mercados de camelôs, com verduras frutas de época (ex.: da jabuticaba em que uma produtora abastece uma demanda espalhada de jabuticabas na baixada). Poucas pessoas da Fazendinha são da ocupação inicial; teve muitas mudanças no local do assentamento, mas dá para ver que não é uma agricultura que está para acabar, e sim, que se reinventa. Isto é necessário, já que está num espaço periurbano. Tem um potencial, mas está ameaçada pelo avanço das indústrias, pressão pela venda dos terrenos.
É bom que se lembre que o assentamento Sol da Manhã virou uma parte do Distrito Industrial de Seropédica e em pouquíssimo tempo a área está irreconhecível. O ritmo desta invasão é muito rápido.
O assentamento de Marapicu tem na violência um elemento muito complicador. Também é uma área de alto interesse da especulação imobiliária. Entre os agricultores, destacou-se a Cristina e Everaldo por sua dedicação e persistência, apesar das enormes dificuldades que vivem
Propostas de continuidade:
O grupo da Fazendinha que estava em busca de certificação, inseriu-se no Serorganico de Seropédica, tendo vários de seus agricultores certificados, e consequentemente em feiras orgânicas do Rio.
Os agricultores de Marapicu se caracterizam pela sua capacidade de resistência, tendo se inserido na feira da roça de Nova Iguaçu e nas comercializações locais.
Daí se viu a necessidade de buscar outros agricultores, visando à aplicação do questionário, que poderia ser a porta de entrada para uma interação de comercialização. Está se vendo o esforço de Caxias em localizar produtores, e também este desafio acontece para o núcleo Nova Iguaçu. As entrevistas poderiam ser junto a estes potenciais produtores, como uma forma de um melhor conhecimento e preparação para atender estes núcleos, inclusive para serem produtores que abasteçam a Rede Ecológica de modo mais amplo.
– Se identificou frutas que poderiam ser inseridas na Rede Ecológica e outras potencialidades de produtos.
Há muito tempo a Rede tem o desejo de identificar quintais com frutas e na época da colheita, encontrar formas destas frutas chegarem aos núcleos. Talvez uma das formas mais significativas para fazer isto, seja uma busca ativa por sobras em geral, junto aos produtores, deixando muito enfatizadas as frutas. Às vezes são apenas uma ou duas árvores de algum quintal que às vezes não é de um dos habituais produtores, e isto não é levado em consideração pelos produtores como podendo ser comercializado. Vai se estudar formas junto a nossos produtores de um aproveitamento máximo do que plantam e podem colher. Para que isto funcione, terá que se pensar caminhos logísticos, que trabalhem com sobras, e formas de colher estes produtos e fazer chegar aos núcleos e talvez a outros espaços. Precisamos pensar formas de apoio a eles, dentro das nossas condições.
– Annelise estará indo aos 2 assentamentos para dar um retorno aos agricultores e talvez incorporar para a lista de produtos um ou outro deles, pois especialmente os agricultores da Fazendinha já estão vindo para a feira da Glória. Vai ser importante outros associados da Rede Ecológica estarem presentes.
– Pensar em possibilidades de conectar os produtores a outros grupos de consumo.
Vários dos produtores passaram pela escolinha de Agroecologia de Nova Iguaçu, talvez se devesse fortalecer o laço com a Escolinha de Agroecologia, com quem já existe certa interação. Ver como incluir o consumo no próprio curso oferecido todos os anos pela Escolinha.
VIVÊNCIAS RURAIS (Lúcio Lambert)
– Proposta das Vivências Rurais surgiu como uma visita mais aprofundada do que as vividas no agroturismo, já que os integrantes podem ficar mais tempo e participam das ações rurais que acontecem, mergulhando assim na realidade dos agricultores.
– As primeiras 3 Vivências Rurais foram no Sítio Canaã, da Leodicéia Salles (duas de 5 dias e as últimas de 3 dias), trabalhando, comendo e dormindo no sitio. O pernoite não foi no sitio e sim num sitio vizinho, da Juliana Medeiros, também produtora da Rede, que tinha melhores condições de acolher.
Percebeu-se ao longo do processo de meses, que a Leodicéia estava no limite entre ser agricultora e comerciante, tendendo a balança a ficar mais na comerciante, compreensível pela realidade de mulher sozinha que não consegue sustentar o sitio. A vivencia rural se confirmou como um excelente instrumento diagnóstico.
Confirmou-se de maneira experimental (no sentido vivencial) o que já estávamos percebendo na vida do dia a dia : o forte aumento da demanda de orgânicos em grandes cidades como o Rio de Janeiro (e o consequente aumento de preços) seduz os agricultores com a oportunidade de negócios.
Com isso, eles tem cada vez menos tempo pra se dedicar às suas terras e cultivos. Como não colocam energia na terra, ela não retorna com fartura e abundancia, levando-os a buscarem outros produtores parceiros (nem sempre confiáveis quanto à rastreabilidade dos orgânicos) que possam suprir a demanda de produtos que eles tem nas feiras.
– Não se pode começar a construir uma casa pelo telhado. È primeiro fundamental, os alicerces, a base, uma fundação ampla e forte o bastante que vai garantir a solidez da casa por toda uma vida. Assim, a base de tudo é o solo.
– Lucio Lambert observou que os sítios em geral estão ociosos, o agricultor vai para o cultivo do que dá menos trabalho (mandioca, pasto e vaca). As vivências levaram para a Leodicéia tecnologias de revitalização e refertilização do solo. São tecnologias muito ancestrais, mas foram apagadas pelo sistema agroquímico e se perderam. Então a proposta de Lucio é levar o biopoder para os agricultores, mas é um processo longo, não é imediato.
Produtores que vão para as feiras acabam não conseguindo produzir, a vertente comercial se torna predominante, tornando-se articuladores entre produtores.
– O objetivo da Vivencia Rural é propor aos produtores uma conversão para a agroecologia, mas a premissa é que o produtor queira esta proposta. No caso da Leodicéia ela não assumiu a questão do solo, começou a caminhar para o agroturismo mais do que para o aproveitamento do solo.
– Agora vão começar as Vivências Rurais no sitio da Flora, que teve uma resposta muito boa até o momento: ouviu as propostas de Lucio em apresentação do Programa Campo e Cidade em Nova Iguaçu, ficou entusiasmada e aplicou por sua conta técnicas repassadas neste dia, relativas ao fortalecimento do solo. Flora se compromete apenas com participar de uma feira (da roça) quinzenalmente, o que mostra sua identidade de produtora e sua possibilidade de entrar na proposta.
Proposta de continuidade:
Participação das pessoas nos mutirões foi bem rica, as pessoas perceberam a importância do solo, do contato com o campo, com os produtores. Houve uma interação importante. Então este é um caminho que o Programa vai continuar a apoiar.
Na proposta de Lucio, a Vivência tem que ser localizada, focalizando em certo agricultor que esteja disposto e tenha este perfil. Uma possibilidade para envolver outros produtores, seria viabilizar que alguns outros produtores participassem da vivencia, especialmente do dia de mutirão, que aconteceria mais espaçadamente. Assim poderiam se instrumentar, sendo que o sitio da Flora receberia uma atenção mais próxima e detalhada. A partir do trabalho conjunto de uma experiência continua e momentos de repasse poderia haver um pioneirismo para novas práticas em relação ao solo. Isso pode ter como consequência a fixação do agricultor no campo, pelos resultados possibilitados pelo enriquecimento do solo, gerando soberania alimentar e excedentes.
Lúcio foi selecionado para o mestrado profissional em agricultura orgânica da UFRRJ – são dois anos. Quer desenvolver seu trabalho de tese sobre estas tecnologias para os agricultores, focando neste período um sitio, de modo aprofundado e continuo.
Trouxe a preocupação em conseguir financiar este trabalho, que será realizado voluntariamente. Mas exigirá transporte, materiais, e ele contava com o subsidio de bolsa universitária. Como estas foram cortadas, vai precisar encontrar formas para viabilizar seu trabalho, com visitas semanais ao sitio, diferentemente das vivencias de 2017 em que os intervalos eram de alguns meses.
Lúcio trouxe sua preocupação em viabilizar este acompanhamento ao sitio, que implicaria a garantia de um valor mensal que colocou como sendo de R$ 400,00 por mês, envolvendo as visitas semanais e as vivencias rurais.
Annelise assinalou a importância de se separar a questão do trabalho acadêmico do trabalho junto a Rede Ecológica. O perfil é muito mais de um experimento e que pode ser que o projeto se modifique. O Programa não terá condições de financiar este projeto de da tese de mestrado, já que tem várias outras frentes . O que é possível é buscar casar os momentos das vivencias que aconteceriam 3 ou 4 vezes ano como uma parte deste projeto, que aí, sim, o Programa Campo Cidade poderia bancar, como fez em 2017. E buscar formas de trazer produtores a estarem presentes neste momento.
Houve certa discussão, de qual seria a proposta da Rede: é criar propriedades-modelo ou sítios que sejam acompanhados mais sistematicamente durante um tempo mais prolongado? É incentivar as trocas que os próprios produtores possam fazer entre si, animados por mutirões organizados por integrantes do Programa Campo e Cidade? É uma combinação das duas coisas? Ficou certa polêmica, que deverá ser retomada, já que se viu que seria bom um pouco a evolução do projeto de Lucio junto a UFRRJ. Lucio pediu também indicações à Rede de outras instituições que se interessariam em colaborar.
PARCERIA COM A AMAR Bibi Cintrão
A Amar há 30 anos organiza chantiers (canteiros de obra) em diferentes assentamentos do estado do Rio de Janeiro, que envolvem entre 10 e 15 jovens franceses que durante 3 semanas põe a mão na massa e ajudam a construir algo. Os jovens pagam por esta viagem de modo que sempre há uma contribuição financeira para o assentamento em questão. O ultimo foi no assentamento Roseli Nunes em Piraí, e Bibi estava à frente da coordenação.
Proposta de continuidade:
Opções colocadas a partir da parceria com a AMAR e do Programa Campo Cidade: maior intercâmbio dos jovens franceses com a Rede Ecológica, inclusive com possibilidade de participar de um Encontro de Grupos de Consumo (com grupos do MST que já estão entregando cestas em Volta redonda e Seropédica?).
Observou-se que algumas obras realizadas nos assentamentos ficam incompletas. Ficou de se tentar em parceria com a Rede Ecológica, resgatar estas deficiências. Pensou-se especialmente na cozinha comunitária construída no assentamento terra Prometida.
A ideia é que os jovens também conheçam melhor a proposta da Rede Ecológica, participando de mutirões e entregas, ficando, nem que seja por um pernoite, junto a associados consumidores. Estes pernoites poderiam ser em caráter solidário na casa de associados de diferentes núcleos. Ficou de ser melhor visto um pouco mais a frente.
Zolmir Figueiredo em maio irá à França e este poderia ser um momento interessante dele interagir com a Amar e ajudar a pensar em caminhos conjuntos.
Em 2018 a Rede Ecológica será novamente convidada a participar de uma visita na França. Importante já ir pensando no assunto e em quem poderia ser indicado.
Proposta de organização de comissão de assessoria técnica aos produtores
Esta é uma proposta para começar a ser desenvolvida a partir do ano de 2018. De certa forma, já se iniciou durante 2017 a partir das vivencias rurais coordenadas por Lucio, e também através do trabalho desenvolvido por Zolmir junto ao quintal do CAC, ajudando a orientar o processo de limpeza, construção do muro, levantamento das necessidades relativas à captação de água, e estando a frente junto com outros associados de mutirões no quintal.
Estes momentos podem funcionar como inspiração e aprendizado para outros associados, presentes nestes momentos. Ficou visível que vários mostraram um engajamento e interesse fortes na produção agroecológica. Pensou-se em criar uma comissão dedicada a ver alguns aspectos técnicos do plantio agroecológico. A participação dos membros nos mutirões seria uma das fontes de aprendizagem, outra possibilidade é fazer o curso como vários já fazem na Escolinha de agroecologia. Sua ação estaria voltada para realizar visitas de agroturismo ao sitio de um produtor. Sempre que há um produtor querendo entrar para a Rede, esta visita seria fundamental. Eles já teriam um conhecimento técnico suficiente, para junto com sua comissão ir discutindo questões e ajudando tanto a certas definições, como a instrumentar novos associados interessados no assunto.
Dione Galvão (Campo Grande) se dispôs a coordenar este grupo, o que não é tarefa muito fácil, já que estas pessoas estão dispersas geograficamente e a correspondência por internet não funciona muito.