O III ENA e o consumo (2ª parte)
“Outro aspecto é que os objetos podem e devem ser substituídos em ritmo cada vez mais rápido, havendo uma total indiferença com as conseqüências destas práticas, que reforçam o desperdício, o desnecessário, o excesso.
O tempo é visto como algo que pertence ao trabalho, que pertence também ao sistema capitalista, que impõe ritmos e dissociações importantes. Vende-se este trabalho em um mercado feroz, que tem uma lógica de competição e exclusão permanentes.
A agroecologia, ao denunciar o que está sendo feito no campo, e se movimentar por uma nova forma em relação a natureza, prepara totalmente o terreno para uma mudança de paradigma. Entretanto, ao ignorar a ponta do consumidor enquanto um ser sistematicamente trabalhado para a alienação, não possibilita o avanço em relação á questão, já que uma ponta fundamental está totalmente de fora.
Não se pode negar que está em curso, em função da precariedade de vida oferecida á população, da percepção crescente dos riscos que o planeta vive, o questionamento do modelo capitalista. E a agroecologia, ao repensar o sistema alimentar, o sistema produtivo talvez seja uma das mais importantes inciativas neste sentido. Uma iniciativa em que os coletivos tem uma importância fundamental.
Talvez pela enormidade e complexidade do assunto, o consumo, como este conjunto de valores que norteiam a vida das pessoas, acaba não se tornando foco de maior atenção. Não é a prioridade. E este é um grande equivoco, já que sem ser abordado sistematicamente, não se terá junto consumidores que entendam de fato o que está em jogo, as transformações necessárias e como fazê-las. E que assim se tornem proativos, produtores.
A nosso ver, os grupos de consumo tem o potencial para influenciar profundamente este assunto. Porque ?
Porque eles se organizam como grupos que querem fazer, no que se refere a alimentação, a agricultura, à natureza as mudanças necessárias em seu cotidiano para que um novo paradigma consiga se estabelecer.
Eles se movimentam em função da busca de uma vida mais saudável, mas também por uma alternativa de vida que seja viável para as próximas gerações.
O estar em grupo supõe discussão, supõe uma energia muito maior do que a de indivíduos, uma sabedoria que vai sendo acumulada, e vai criando uma contracultura. A organização em grupo é complexa, engendra conflitos, mas os desafios que se colocam são aprendizado.
Os grupos de consumo, percebendo a desigualdade da equação agronegócio x agroecologia percebem que terão que ir além de fazer compra junto a produtores que comungam com seus princípios. Percebem que comprar, cuidando de sua saúde pessoal, que não comporta venenos, é insuficiente para o desafio vivido por esta e pelas futuras gerações.
Uma conseqüência é que o agir se torna algo que não está mais orientado pela lógica do lucro, ou do dinheiro, mas no qual a doação, a dádiva passam a ter novamente um papel central. Sair da lógica do dinheiro é um aspecto que rompe com as premissas básicas do capitalismo.
Esta mudança de referencia, mesmo que ainda marginal na vida das pessoas, faz toda a diferença. Porque lhes possibilita a familiarização com um novo mundo e novas propostas.
Os grupos de consumo tem uma proposta prática muito evidente: compras que deverão ser feitas sempre pressupondo a presença de um coletivo que as norteia. O querer estar mais próximo dos produtores, geralmente também coletivos, é um valor.
E aos poucos, os grupos começam a repensar:
Os produtos chegam a granel, e são pesados em cada local de entrega, pelos próprios consumidores.
desde suas sacolas, em que o plástico vai sendo eliminado, um dos elementos essenciais de nosso moderno funcionamento; buscando o reaproveitamento de vasilhames, que retornam aos produtores
Buscando mexer com o lixo orgânico, possibilitando a compostagem, que é a base para um mínimo de cultivo dentro da cidade.
Propondo um caderno ecológico, que trabalha sobre o reaproveitamento de folhas, capas,etc. O reaproveitamento em geral é uma tônica, em que objetos serão repassados, para novo uso, em vez de encher os lixões.
E assim vai-se entendo melhor o que está em jogo: a possibilidade destes grupos irem avançando, tematizando através de oficinas estes assuntos e outros como o papel da publicidade, das embalagens, a adesão excessiva á carne, sempre em busca de novas soluções.
É algo que não é tão simples, mas também não tão difícil que não possa ser executado. Ao contrario, na medida em que chegam as feiras agroecológicas, novas possibilidades de criação de grupos de consumo surgem, já que os produtores ali estão reunidos, e levar para mais ou menos perto produtos para uma dezena de famílias, não é algo tão complexo, e que representa uma renda garantida e ampliada.
O fato das pessoas terem que participar ativamente da existência destes grupos, vai fazendo com que elas vão se apropriando do processo campo-cidade, aprendendo, e participando. E sentindo mudanças. Mudanças que levam a vários a não querer mais ir mais aos supermercados, reduzindo sua dependência dos mesmos. A mudar seus hábitos. A se dar conta do que está em jogo. É um processo, que precisa seu tempo.
Mas porque estes grupos até agora se desenvolveram tão pouco em nosso país?
Talvez porque aqui seja o palco de um capitalismo muito selvagem, que tem sido, através do monopólio dos meios de comunicação, muito eficaz em impor seu modelo cultural .
O consumo foi através dos supermercados e shoppings, se organizando para aparentemente ser eficaz, centralizando tudo o que há a oferecer , tendo esquemas de pagamento ´das quais a população é dependente. A aparente diversidade da oferta de produtos em realidade é totalmente falsa, porque de verdade as pessoas tem a sua disposição a repetição do mesmo. No caso do alimento, este não está nas gôndolas dos supermercados: o que está são produtos, nos quais o alimento propriamente dito, praticamente não existe mais. Muitos alimentos excelentes em qualidade são excluídos, e existem marginalmente, sendo gradualmente resgatados por estes grupos de consumo.
Pensando nesta revalorização dos alimentos, o voltar-se para o cozinhar tem um papel fundamental. Assim o Slow Food tem se tornado uma das principais vozes afinadas com a agroecologia.
O que está em jogo? Que mais e mais pessoas percebam que elas podem entrar para mudar sua alimentação. E que isto exige algum esforço extra na sua vida tomada pelo capitalismo, mas é algo que lhe retorna com mais opções alimentares, opções de qualidade, parcerias e afinidades que lhes ensinarão muitas coisas, caminhos novos que até o momento não são considerados, porque vistos como inviáveis. Como se defrontar com o excesso de embalagens, se fazer cargo de seu lixo orgânico doméstico, buscar no reaproveitamento uma saída para o excesso e implantando a redução do consumo, para o que realmente é necessário, do ponto de vista de harmonização com a natureza.
Porque grupos de consumo não surgem dentro e a partir de sindicatos? De associações de moradores? De grupos feministas? de cooperativas de agricultores?
Torcemos muito para que o III ENA dê o devido peso ao consumo e às suas formas inovadoras de acontecer. É o fórum indicado para esta reflexão.”