Continuação do relato:
“A parte da tarde se voltou para aprofundar as questões e realidade dos produtores, dando-lhes voz um a um.
Primeiramente foi o Ronivon, produtor dos queijos de Bemposta: Pegam produção de +/- 10 produtores familiares da região que são muito descapitalizados, e consequentemente não utilizam todos os remédios e normas propostas. Mas acabam tendo um produto de muito maior qualidade do que os grandes produtores.
Surgiu a questão quanto à embalagem (se buscar formas de substituir o pote plástico para o requeijão e a manteiga).
Uma sugestão foi haver um conjunto de bolsas térmicas. Ronivon sugere que a manteiga poderia ser embalada em blocos como tem ido para Itaipava, embrulhada em papel manteiga.
Proposta: Patrícia, Bibi e Miriam sugeriram um teste em quantidade pequena.
A seguir é o MST Regional Sul com 4 assentamentos, que estão iniciando o abastecimento à Rede Ecológica, mais especificamente o Roseli Nunes e o Irmã Doroti: já iniciaram trazendo os ovos caipiras, e vão introduzir agora o leite, pensado para num primeiro momento ser trazido em garrafa PET, em garrafas de 2l, apesar de acreditarem que garrafas menores seriam mais interessantes. Estão levando garrafas de vidro (do suco) da Rede para testarem sua viabilidade com o congelamento.
Bibi alertou para que o cheiro do leite possa despertar junto aos consumidores certo estranhamento, já que estão acostumadas a um leite muito diluído.
Dione – é proibido congelar leite, porque esse congelamento e descongelamento altera a qualidade.
Proposta – poderia haver uma recomendação sobre como congelar e para os consumidores haver uma recomendação sobre como descongela-lo, para que ocorra sem maiores problemas.
Bibi assinala que a legislação é pensada para a proteção dos grandes mercados e empresas, inviabilizando os pequenos. Então nem todas as recomendações são válidas.
Dione – a principal preocupação, na verdade, seria com a vacinação do animal.
Raoni – Uma dificuldade que temos é com o arroz que não dá para produzir integral, por conta do beneficiamento. Há um arroz que precisa ser testado pela Rede e há disponibilidade da farinha de arroz. Feijão estará disponível daqui a 2 meses.
Berinjela, jiló, quiabo, são produtos constantes. O problema que estão enfrentando é a otimização do transporte. Uma proposta, a partir do contato com o Serorganico, foi de trazeres seus produtos de Piraí até Seropédica e João Pimenta seguir daí.
Assinala ainda que o MST vai montar um entreposto com produtos do MST de outros estados para o RJ e podemos apresentar produtos de interesse do grupo. Também tem um grupo de saúde que produz shampoo, condicionador, sabonetes, que poderiam entrar mensalmente nos secos.
Sobre o assentamento Terra Prometida, se assinalou que há necessidade de separar os tipos de laranja, e também os limões. O produtor informou que não é muito fácil. Mas a Lígia Mefano (Urca) e Sergio Lima (Nova Iguaçu) estarão assumindo o acompanhamento do Terra Prometida e tratarão deste assunto com os produtores (estava presente Tiozinho e não as lideranças).
Raoni – como separar os cítricos se não utilizar plásticos?
Proposta: utilizar sacos de rafia ou caixas de papelão. E identificar por escrito o tipo de laranja.
Flora: hoje eu tenho pouca variedade para produzir, tenho na maioria aipim. Lá a questão da estrada é um grande problema. O projeto PAIS (está para chegar), o Rio Rural também, fica a espera. Queria aproveitar para plantar outras variedades como alho, por exemplo. Tem o projeto para fazer a farinha de mandioca, que só faz em pequena escala, não ficou satisfeita com o resultado.
Viu-se que o projeto Pais ficou como uma medida de sedução e compensação pela Danone estar captando água da reserva de Tinguá.
Flora pode ser uma referencia importante para o núcleo de São João de Meriti e também de Caxias para se abastecer. Ela tem alguns produtores ao seu redor, que podem também aprofundar sua transição para a agroecologia.
Comentou o acompanhamento de Lucio Lambert (Urca), que está acompanhando de perto seu sitio, como assunto de sua tese de mestrado. Foi comunicado que haverá uma vivencia rural em seu sitio em 29 e 30 de junho. Este momento sendo muito fértil para consumidores e produtores.
Coletivo Casa da Floresta – um novato na Rede, trazido pela Casa Anitcha, que será sua acompanhante: apresentou os produtos provenientes da palmeira juçara. Eles são de Ubatuba. O projeto veio com o IPEMA (Instituto de Permacultura da Mata Atlântica), capacitando produtores locais para a produção, mas eles tiveram problemas de comercializar e apenas alguns se mantiveram. O coletivo Casa da Floresta quer pegar alguns produtos desses grupos que pararam de comercializar. Lançaram um produto “juçarai” com inhame, banana, cambuci e juçara. Vão começar com um ponto de distribuição do Juçaraí na casa Anitcha e passarão a abastecer a Rede Ecológica.
Ana do CEM: tiveram um problema com a pedreira, tráfico e acabou que o CEM perdeu sua sede e consequentemente, reduziu muito a produção. Hoje tem buscado quintais de companheiras na favela para começarem a produzir mais coisa. Querem fornecer também mudas em kits, envolto em panos, que ficou como sugestão de novo produto. Ainda tem grande dificuldade de conseguir fazer espaços na favela para que as crianças possam ficar.
Para eles estar com pouca quantidade de pedidos não é um problema porque já existe um caminho logístico com a Agrovargem, mas solicita fazer compras diretamente de produtores da Rede que vão à feira da Glória para revenda em outros espaços, especificamente na feira de Olaria.
Um aspecto enfatizado foi a falta de articulação entre produtores, para melhorar o escoamento entre eles. Eles pegam banana do Francisco, poderiam pegar aipim da Coopaterra.
Chegamos ao momento final, em que se abre um espaço para que todos falem como perceberam o evento.
Flavia (Grajaú) – estou engatinhando tentando acompanhar os produtores e estou gostando muito.
Ana Santos fala da decepção com seu acompanhante, de Niterói que até hoje parece que não sabe das mudanças que ocorreram com o CEM, não procurando em momento nenhum.
Há um questionamento ao acompanhamento que é visto como pouco funcional.
Erika fala que a coordenação da Comissão de Acompanhamento de Frescos que ela e Cecília tem assumido, demanda 3 h diárias o que é inviável. A coordenação precisa ser um grupo e não duas pessoas apenas. É preciso que tenha contato com o núcleo. Teria que ter uma sensibilização com o grupo.
A comunicação mais ágil com os produtores foi enfatizada, pensando-se em como a carta semanal possa ser lida por mais gente: poderia aparecer com pop–up aparecendo tudo, inclusive vídeos gravados com os produtores, mas em uma primeira chamada viriam apenas as coisas essenciais.
Também foi visto que por os produtores não se conhecerem, não haver comunicação entre eles. Este aspecto poderia ser muito mais enfatizado, na medida em que estes encontros se tornem mais frequentes. O mínimo seria uma vez ao ano, o ideal 2.
Flora – ficaria feliz em produzir aipim para Ana do CEM, para fortalecer outros agricultores.
Rafael aponta que vê como diferencial da Rede, para todos os outros grupos que existem, esta relação com os produtores: Olhar no olho dos agricultores e falar que estamos com vocês.
Sol do Humaitá – tem participado dos mutirões e vendo pessoas que fazem acontecer é estimulante estar junto com as pessoas e vendo as questões.
João – a ideia desse espaço era iniciar esta discussão, que bom que veio. A Rede é algo que tem uma ordem no meio do caos. É divertido.
Paloma – Sempre bom interagir com os outros produtores e núcleos. Tem pessoas fantasmas que prejudicam todo mundo.
Marcos – Sinto falta de mais algumas coisas como agrião, abobrinha, mas sinto que as vezes faltam legumes e verduras e foi importante porque nesse encontro vi propostas de mudança.
Erika – Demos conta do recado.
Renata – No aniversário de 15 anos da Rede, fiquei encantada, mas estar junto com os produtores é encantador. A sugestão é que a gente busque ferramentas e parcerias para ajudar a rede a otimizar o tempo. A gente perde muito ao não trabalhar mais com o marketing digital. Recentemente no núcleo do Grajaú houve uma reunião, em que se utilizou uma técnica muito simples da sociocracia, e como isto mudou tudo! Existem diversas alternativas por ai que poderiam ser melhor exploradas. Ela consegue articular pessoas para ajudar com isso.
Lauro – complementando a Renata. Grato pela visão de expandir para a baixada. Hoje temos boa relação e tenho gratidão pelo grupo, pela Suély de Caxias, que nos forneceu o ora pro nobis. No evento faltou um crachá de cada pessoa, para ficar mais rápida a identificação. Tenho interesse em participar na comissão atuante no Conselho de Segurança Alimentar RJ.
Ítalo – é um movimento de resistência. Estamos ajudando a viabilizar a permanência do agricultor.
Bibi – Maior participação do grupo nos eventos que envolvem os assentamentos auxiliam nessa troca de informações.
Finalizando, Um dos temas muito importantes trazidos em vários momentos foram as violências e arbitrariedades, as ameaças vividas pelos agricultores:
Primeiramente por Suely e Marcelo, com a presença de fazendeiros que não respeitam os limites, havendo o gado invadindo a área e destruindo toda a produção. A impotência frente a truculência.
Importante a fala de Raoni em resposta, falando da necessidade de articulação entre indivíduos (consumidores/produtores) que precisam se unir, se organizando em associação/cooperativas, etc., para que possam se reconhecer enquanto territórios e enfrentar estas situações. O coronelismo não existe só no Nordeste, no Rio tem muito coronel que comanda as regiões e precisamos nos unir, para termos capacidade de enfrentamento.
E posteriormente a situação vivida pelo CEM e também pelo Verdejar, na cidade do Rio de Janeiro.
O desafio: como a Rede pode entrar um pouco mais nestas situações?