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Resposta de uma militante sem terra e advogada à reportagem da TV Record sobre os sem terrinha

Na noite deste domingo, 10/02, muita gente assistiu uma sequência de mentiras numa reportagem que a TV Record veiculou sobre o Encontro Nacional Sem Terrinha, que o MST realizou em 2018 em Brasília com 1.200 crianças.

A Record fala em doutrinação de crianças, que o MST manipula e não cuida dos sem-terrinha. É tudo mentira!

*Você sabia que o encontro era sobre direito à educação e alimentação saudável? Pois é! São crianças que estão lutando por escolas e alimento sem veneno. Pelo futuro delas! E com muita literatura, música, amor, diversão. Tudo que as crianças precisam e merecem.

Espalhe a verdade. O MST cuida, junto das famílias sem-terra, de milhares de crianças que sofrem na pele o descaso do poder público em fazer reforma agrária e garantir uma vida digna no campo.

Assista uma reportagem feita pelas próprias crianças no encontro e veja como foi: https://bit.ly/2SonO4B

Encontro Nacional de Sem Terrinhas uniu diversão, aprendizado e mobilização https://bit.ly/2I46YTT

Crianças sem terrinha criticam cortes na educação em Encontro Nacional https://bit.ly/2uMqtr1

MST arrecada livros de literatura infantil para crianças sem-terra https://bit.ly/2DrQjUM

Para completar, vale conferir este depoimento de uma ex-terrinha:
“Ontem, 10 de fevereiro, a emissora do Pastor Edir Macedo transmitiu uma reportagem sobre o Encontro Nacional dos Sem Terrinha, que aconteceu em Brasília em 2018. Questionaram até que ponto uma criança deve ser inserida em uma organização de caráter ideológico. Pois bem:

Venho, então, falar como sem terrinha que fui. Nasci e me criei na Bahia, no seio desta organização, de uma família de origem camponesa do interior do Piauí. Desde muito pequena, aprendi sobre a importância de dividir com as demais crianças. Aprendi que o brinquedo, o lanche, a roupa, são coisas que, quando necessário, devem ser compartilhados. Aprendi que a cama macia para dormir não era comum na vida de todos, para alguns era luxo, que comer mais de refeição também. Aprendi que estudar próximo de onde morava era algo quase impossível. Que, naquela época, ter uma TV era o sonho de muitas crianças. Aprendi a dar valor a tudo que tinha e que nada caia do céu. Que meus pais trabalhavam dia e noite, passavam semanas fora de casa visando melhorar a vida não apenas da nossa família, mas de outras também.

Aprendi que a arte, a cultura e as brincadeiras eram um direito, uma necessidade humana para fazer os dias de amargura um pouco mais doces.

Aprendi que aquela sementinha de feijão que plantamos na escola significa cuidar a terra, cultivar o alimento, semear o grão.

Aprendi que, apesar de parecerem mundos completamente diferentes, na cidade muitas crianças também não tinham o que as crianças do campo almejavam. Que a comida que se tinha na cidade, vinha diretamente da mão do povo do campo.

Hoje, com estes e tantos outros aprendizados adquiridos ao longo da vida, a sem terrinha que antes não entendia do mundo, pôde estudar – mesmo nas escolas tidas como “tradicionais e livres do comunismo”-, pôde entrar (com outros que também foram sem terrinhas) numa das carreiras acadêmicas mais elitistas, que outrora formava apenas os filhos dos que muito tinham.

Hoje, com diploma e OAB, esta sem terrinha poderá defender que cada criança aprenda tudo que aprendi, que tenha tudo que não tive, que sorria, cante e brinque como se deve e que possa, assim como eu, ter todas as oportunidades para pintar os quatro cantos deste país de povo.

Até que ponto, então, as crianças devem se inserir em uma organização de caráter ideológico? Respondo: até que não seja mais necessário lutar pelo que é direito. Foi assim que aprendi e é assim que vou ensinar para todas as crianças, seja ela sem terrinha ou não: que só a luta muda a vida.”

Ariane Araújo, militante sem terra e advogada formada pela turma de Direito da UNEB Eugênio Lyra (PRONERA).